A insinuação de Gonzaga Rodrigues

Gonzaga Rodrigues não me conhecia quando Ivan Bichara me trouxe para ajudá-lo a governar a Paraíba. Ele e quase todos na acanhada João Pessoa de 1974. O próprio Ivan, já escolhido governador, mal sabia quem eu era, mas fora alertado por um primo comum:

– Ivan, você devia chamar o menino de Cristiano, foi técnico da Sudene e está no BNB.

– Então lhe diga que eu quero falar com ele.

A primeira conversa foi em julho, em Cajazeiras. Daí para frente, tudo correu bem, inclusive a missão de Dorgival Terceiro Neto de solicitar minha liberação ao presidente do BNB, a fim de coordenar a elaboração do Plano de Governo, um objetivo anunciado por Ivan Bichara, antes mesmo de voltar à Paraíba. Ele residia no Rio, desde 1954, quando se elegeu deputado federal.

Eu nunca residira em João Pessoa,

Nem mesmo quando estudante. Hospedado no Hotel Aurora, me instalei na Secretária de Planejamento, na rua João Machado. Logo comecei a delinear o Plano, estruturar a equipe técnica, mantida com recursos a fundo perdido do governo federal. Com a valiosa colaboração de Dorgival, futuro vice-governador, e de Cesar de Paiva Leite, secretário de Ernani Sátiro, formamos o grupo do Plano.

O resultado a história registra.

Foi nesse contexto que tomei posse, em 16 de março de 1975, no cargo de secretário de Planejamento e Coordenação Geral. Sem maior pretensão, discursei de improviso. Pura inexperiência, falta de alerta para os rituais e protocolos do poder. Mas só me deu conta da gafe três dias depois, quando li crônica de Gonzaga Rodrigues no jornal O Norte. Ele andara querendo saber “quem é esse tal de Cartaxo”. Dorgival foi lacônico: “Um excelente técnico.” Alguém arriscou: não conheço, acho que não é bom.

Gonzaga ouviu atento meu improviso.

Ontem, sem que ele mesmo pressentisse, traiu-se inteiro (…) despregou-se de um fio de palavra, dum retalho de frase. (…) O equipamento técnico não é mais do que um instrumento para alcançar ou atingir a verdadeira vocação. Que vocação? Vejam: “larguei a função meramente técnica (reparem bem, meramente técnica) porque sinto vocação para a função pública. (…) vi, nos meus 3 anos, em 42, o drama da seca e interessei-me, a partir daí, por essa literatura. Li, ainda novo, A Paraíba e seus problemas”. (…) O nosso Cartaxo vê em grande angular. (…) assessorado pelo olhar de sua legítima vocação. Será mesmo a de técnico? Seu verbo é fácil, é de povo e daqui a quatro anos veremos…

Veremos sim. No próximo artigo.

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