Zé do Norte – Música da terra, músico do mundo

ENOQUE FEITOSA

No final de dezembro passado, quase despercebido em função das comemorações de natal, algumas atividades foram feitas em Cajazeiras, para homenagear aquela que seria a data de 90 anos de Alfredo Ricardo do Nascimento. Para muitos, quem seria ele? Mesmo que dissessem se tratar de Zé do Norte, outros tantos perguntariam, quem é.

Poucos se lembram. Mas, no Brasil, quem não conhece os versos de “Mulher Rendeira”, consagrada na trilha sonora do clássico de Lima Barreto, de 1953, “O Cangaceiro”, que foi considerado o melhor filme de aventura do Festival de Cannes daquele ano. Aliás, mesmo no Nordeste, esta música é tão enraizada no imaginário coletivo, que a maioria das pessoas a vê como herança folclórica, de domínio público e autor desconhecido. A trilha do filme, que tem parte das músicas de outros autores, em muito contribuiu para tornar a música de Zé conhecida em todo mundo – Europa, EUA, União Soviética – já que, na época, a fita foi vista em 80 países e por quase 50 milhões de pessoas!

Alfredo Ricardo do Nascimento, ou melhor, Zé do Norte, nasceu em Cajazeiras em 18 de dezembro de 1908 e migrou para o Rio de Janeiro em 1926, ao completar 18 anos. Se vivo estivesse estaria completando, neste ano, 91 anos de uma vida marcada por uma intensa ligação com seu povo e sua cultura e por belíssimas músicas que fazem parte do cancioneiro nacional.

No Rio, na esteira da afirmação da música nordestina, através de Luiz Gonzaga, em programas da Rádio Nacional, criada após a Revolução de 30 por Getúlio Vargas, para estimular a difusão de uma Cultura Nacional-popular, Zé do Norte, foi descoberto pelo homem de teatro Joraci Camargo, autor de “Deus lhe Pague” e “Sindicato dos mendigos”. Ao lado de outros que na mesma época eram atraídos pelo Rio, como João Pernambuco, Jaime Florence, (o Meira, que com o Dino 7 Cordas formou uma das mais duradouras duplas do violão brasileiro), Luperce Miranda, Jackson do Pandeiro, entre outros, Zé do Norte viu surgir a grande oportunidade de afirmação de seu talento, tendo nesse período de 1928 e até o final da década de 50 tido intensa participação na difusão da cultura e do cantar nordestino, na antiga capital federal.

Zé do Norte saiu de Cajazeiras praticamente analfabeto. Lá, foi funcionário da limpeza de um colégio particular e mesmo propondo trabalhar de graça para poder estudar, não foi aceito por que, conforme lembra nas suas memórias, o então diretor o informou que “aquele era um colégio exclusivo para pessoas de família”.

Mesmo assim, sem chances de obter educação formal, Zé não abriu mão de adquirir sólida formação humanista, que foi decisivo para vinculá-lo as suas raízes e produzir uma música bela e evocativa dos sentimentos de sua gente. Segundo ele mesmo fala, leu de tudo – Graciliano Ramos, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Casemiro de Abreu, José de Alencar, Camões e Balzac.

Zé produziu cerca de 200 obras musicais, boa parte carecendo de um trabalho de catalogação. Sua obra é cantada hoje no Brasil e no exterior, embora nem sempre a fonte seja citada. É o caso, por exemplo, do disco de Caetano Veloso, “Transa”, de 72, a música “It’s a long way” cita versos de Zé do Norte (“os óios de cobra verde/ hoje foi que arreparei/ se arreparasse há mais tempo/ não amava quem amei (…) arrenego de quem diz/ que o nosso amor se acabou/ ele agora está mais firme do que quando começou”), mas, nos créditos da música, tanto no disco quanto na homepage oficial do cantor, eles são colocados como da lavra do baiano.

No período mais fértil da carreira de Joan Baez, ali nos anos 60, vários artistas, como Bob Dylan e a própria Baez foram buscar no folclore americano e na música da América Latina fonte de inspiração. E é num de seus primeiros discos, o “Joan Baez 5”, que encontramos a “Mulher Rendeira”, com o título de “O Cangaceiro” e com o Zé do Norte com seu nome de batismo completo, Alfredo Ricardo do Nascimento. Nesse mesmo disco, Baez gravou a “Quinta Bachiana”, de Villa-Lobos.

Na MPB uma outra canção sua muito conhecida é “Sodade, meu bem, sodade”, toada gravada pela primeira vez por Vanja Orico, em 53. É dele também “Meu Pião”, que gravou em 71 e que se tornou conhecida na voz de Geraldo Azevedo. Suas músicas, além de evocativa das coisas sertanejas, têm muito lirismo, como se vê em “Sapato de algodão (“eu fui dançar/ com meu sapato de algodão/ o sapato pegou fogo/ eu fiquei de pé no chão”), outra, de versos singelos, que também é atribuída em várias regiões do Nordeste, como música do folclore, é “Lua bonita”, em parceria com Zé Martins, também de 53.

Zé do Norte só voltou a Paraíba quase 60 anos depois, em 85, para ser homenageado em um festival cultural. O conjunto de sua contribuição à MPB e as Culturas Nacional e Regional é imensa e ainda pouco conhecida, sendo utilizada, como é o caso de “O lobisomem de Cajazeiras”, em textos teatrais e novelas de TV, em nome de outros autores.

Ele foi um representante típico daqueles artistas enquadrados na definição de Tolstoi: “Sou universal ao falar de minha aldeia. Descreva sua terra e assim estarás descrevendo o mundo todo”.

PUBLICADO NO GAZETA DO ALTO PIRANHAS – ED. 527 (16 a 22/0/2009)

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