Cajazeiras-PB, 17/12/2017
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Um país esmaecido

O que aproxima e o que separa o desmaio de uma criança com fome e uma exposição em que corpos nus traduzem formas de ver e dizer a vida e suas múltiplas configurações.

Uma criança moradora da periferia da capital do país desmaia com fome na escola. Uma criança que tem na merenda escolar uma das principais refeições do dia. Uma criança cujos pais, como tantos outros pelo país, foram excluídos e invisibilisados com os cortes dos investimentos em programas e projetos de redistribuição de renda. Programas e projetos que, a revelia de críticas e infundados argumentos de estímulo a preguiça e ao clientelismo, foram responsáveis pela produção de uma série de condições favoráveis e que, segundo organismo das Nações Unidas, retiraram o Brasil do mapa mundial da fome.

A visibilidade midiática do desmaio da criança com fome na escola mascara outras tantas crianças esmaecidas em cracolandias, em carvoarias e fazendas de trabalho escravo, em sinais de trânsito e nos tabuleiros de vendas de balas e bombons. Crianças cujas vidas e dignidades são irrelevantes ante a “necessidade de combate a corrupção” que tem como meta principal o desmonte de uma série de conquistas sociais e a inoperância de programas de redistribuição de renda esvaziados pelo desvio de recursos para o aliciamento de parlamentares que assegurem os votos necessários a “modernização” do Estado que, mínimo em sua face social, se revela máximo no favorecimento de suas elites.

O desmaio não é apenas do estudante, mas escancara a fale de um país que perde o vigor na entrega de nossas riquezas e potencialidades de fortalecimento da soberania de nossa gente. O desmaio do pré-sal que, graciosamente, entregue a grandes corporações transnacionais, elimina toda e qualquer possibilidade de fortalecimento dos serviços de saúde e educação.

E os desmaios e desfalecimentos se repetirão em pátios de escolas, em filas de hospitais, em ruas, praças, becos, vielas por onde vagueiam e vaguearão invisíveis e desnecessários sujeitos. Sujeitos pretos, pardos, pobres, mulheres, prostitutas, travestis, presidiários, ex-presidiários.

Todos, em suas insignificantes existências, expressam apenas sua condição de pária de um país hipócrita que alardeia sua indignação com uma expressão artística, que “agride a moral e os bons costumes”, ameaçando “os valores da família”.

Um país cujos senhores de “boa índole”, que se intitulam ardorosos defensores da “moral e dos bons costumes”, estampam em suas camisetas escondidas por baixos dos engomados paletós de caxemira inglesa, que “bandido bom é bandido morto”.

Mas, como nos diz Caetano Veloso, “Enquanto os homens exercem seus podres poderes/ Morrer e matar de fome, de raiva e de sede/ São tantas vezes gestos naturais”.

SOBRE MARIANA MOREIRA

MARIANA MOREIRA

Jornalista e professora universitária.

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