Cajazeiras-PB, 18/11/2017
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Teoria da explosão

PEIDO

É história repetida há séculos. Dom Pedro II chegou a dizer que empenharia as jóias da coroa para solucionar o problema. De lá para cá, todos os mandantes fizeram declarações, promessas e planos, mas a seca no Nordeste brasileiro continua a desafiar o país. Governos, economistas, cientistas políticos, organizações internacionais, tudo e todos propuseram soluções, mas é sempre a mesma coisa: a seca se repetindo, o povo sofrendo, muitos se beneficiando e nada muda.

Hoje, com a mídia instantânea, até que ficou fácil. Pouco tempo depois da desgraça, alguma coisa acontece, assistencialismo como sempre. Mas, na primeira metade do século passado, o negócio era diferente. Com a precariedade da época, as ações assistenciais chegavam tarde, muito tarde.

Em 1942, nos sertões de Cajazeiras, numa das mais rigorosas secas de que se teve notícia, quando mais ninguém suportava mais a miséria, o governo distribuía feiras, as cestas básicas de hoje. Faziam-se filas quilométricas para recebê-las.

Chamava a atenção, daqueles que foram inscritos mais recentemente para gozar do benefício, um fato repetido: qual seria a razão para que Zeca Canhão fosse poupado da fila? Figura magricela, caquética e branquela. Mal chegava era chamado para receber sua feira, passando por todos que esperavam há muito tempo.

Inicialmente foi só reclamação. Depois, quando as filas aumentaram mais e mais, o desconforto aumentou. Juntaram-se e, sem antes se informarem com os que recebiam desde o começo, foram aos distribuidores do benefício. Qual seria a razão do privilégio? O que daria àquele amarelo o direito de passar à frente de todos? Seria algum político que o estava protegendo?

A turma da distribuição ficou meio sem jeito para explicar. Desconversaram, enrolaram, fizeram tudo para tirar por menos.

Não teve jeito, a exigência foi maior. Tiveram de esclarecer, não havia outra forma.

E contaram. Nas primeiras distribuições, no ambiente fechado em que eram feitas, um fedor horrível fazia com que todos passassem mal. Era uma catinga que ninguém suportava, algo que conseguia impregnar todo o ambiente. Uma conclusão foi inevitável: eram flatos, peidos.

Por isso, os distribuidores proclamaram que o autor da façanha nunca mais receberia a feira. Foi quando o minúsculo Zeca Canhão apareceu e declarou, peremptório: “fui eu e, se não me derem a minha feira agora, eu solto outro maior”.

VALIOMAR ROLIM PARA O GAZETA DO ALTO PIRANHAS - ED. 343

SOBRE Christiano Moura

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