Cajazeiras-PB, 18/11/2017
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[TATYANA MANGUEIRA MOURA] Mentira cabeluda, penteada e alisada

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Quem nunca mentiu atire a primeira pedra. Nossa!!!! Fico imaginado quantas pedras devem ter sido escondidas nesse momento.

Cresci ouvindo que “quem mente, rouba” ou “mentira tem pernas curtas”. Talvez isso seja uma verdade. Meu avô Zequinha (in memória) tinha muita raiva de quem contava mentiras. Uma vez, em seu sítio, num tempo em que o castigo realmente corrigia, um dos seus moradores foi pego em uma mentira (não sei se cabeluda ou penteada). Meu avô, para corrigir o mentiroso empregado, colocou um ovo quente em sua boca. Nos dias de hoje ele seria denunciado e o fulano continuaria com suas estorinhas. Mas, não foi isso que aconteceu. Depois do ocorrido, este empregado se tornou um homem sem meias verdades. A mentira passou a ter sabor de ovo cozido.

A mentira é algo que faz parte da nossa vida, o que é uma contradição, já que ensinamos às crianças que não podem mentir, pois Papai do Céu está vendo, sem precisar recorrer ao ovo quente. Mas, e os adultos, o que fazem senão usar as mentiras para esconder-se por detrás delas, omitindo suas verdades irreveláveis. É. Realmente é contraditório. Uma verdadeira falta de absurdo, como diria um conhecido. O ovo quente da verdade até poderia ser útil.

Quando finalmente arrancamos a máscara da mentira e a verdade mostra-se absoluta, o que fazemos? Às vezes temos medo dessa verdade e optamos pela versão apresentada pela mentira. Isso acontece em várias situações, como por exemplo, quando um cônjuge se recusa a ver que o outro está sendo infiel, evitando o enfrentamento e/ou a perda; quando os pais se recusam a enxergar que o filho possui algum tipo de deficiência, passando a fazer uso da negação; quando o trabalho o está consumindo e você acredita que não há outra opção. São inúmeros exemplos. Preencheríamos infinitas laudas com esses tipos de mentiras-auto-protetoras.

Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.

As famosas mentiras do bem, o que são? Vejo-as como saídas não menos dolorosas para quem mente, recolhendo a sua culpa e guardando-a em um lugar fechado à chave de mais mentiras.

E os mentirosos inveterados, aqueles que mentem em pequenas e grandes coisas? Esses, nem os ovos quentes seriam eficientes. Uma pequena mentira, só pra não ver o outro sofrer: Isso não fará mal algum!, pensam. Mero engano. Já uma grande mentira pede mais tantas outras, para deixá-la menos (ou seria mais?) mentirosa. Enquanto isso, o outro vai vivendo uma verdade mentirosa em uma vida cheia de ilusões, construída em alicerces vazios. Uma realidade que talvez nunca seja real, pois quando isso acontecer, os mundos cairão em direções diferentes. Ou não, passando o indivíduo a esconder-se em mais confortáveis mentiras.

Vejo a verdade e a mentira como duas espadas. Espadas bem afiadas que penetram a alma. Se a espada da verdade dói quando nos atinge a alma, a mentira é ainda mais dolorosa. Mas, se a espada da verdade suceder a da mentira, torna-se ainda mais venenosa. Sua ponta é feita com o veneno do esclarecimento, da desilusão, causando a sua própria morte e a morte do outro para você. Refiro-me a morte dos bons sentimentos, da confiança. Dois golpes: um dado pela mentira e outro, logo em seguida, pela verdade esclarecedora. São ferimentos pungentes e, em alguns casos, mortais, sufocando-se ao mesmo tempo. Tudo cai por terra. Desmorona. Vemos o outro despido das mentiras, apresentando-se em essência de verdades, as quais foram intencionalmente trancafiadas em grades de mentiras.

As mentiras destoem lares, relacionamentos, amizades, vidas. Faz-nos perder o rumo. É um caminho, muita das vezes, sem volta.

No entanto, poderíamos nos perguntar: Será que suportaríamos todas as verdades? Talvez as mentiras sirvam pra aliviar as possíveis dores da verdade. Será? Mas, não seria mais fácil agir corretamente para que não seja necessário fazer uso das mentiras? Mentira!!!

E, assim seguimos com as verdades mentirosas e as mentiras cabeludas, penteadas e alisadas com falsas verdades.

SOBRE TATYANA MANGUEIRA MOURA

TATYANA MANGUEIRA MOURA

Professora e psicóloga.

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