Soia: presença “lírica” na arte

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A atriz Soia Lira ingressou nas artes cênicas ainda na terra natal, Cajazeiras – localizada no Alto Sertão da Paraíba – influenciada pelos familiares. A decisão foi tomada quando assistiu seus irmãos Buda e Bertrand Lira encenando o espetáculo da Paixão de Cristo. Mas o próprio clima de efervescência cultural que se respirava, naquela época, também a induziu para a escolha. Resoluta, ela iniciou sua trajetória no palco encenando, pelo Grupo Mickey, aos 12 anos de idade, no início da década de 1970, o espetáculo infantil Chapeuzinho Vermelho. Carreira que, a propósito, viria se revelar vitoriosa, pois receberia, por exemplo, em 2004, o prêmio de Melhor Atriz pela atuação no longa O Quinze, do diretor Jurandir de Oliveira e baseado no romance homônimo da escritora cearense Rachel de Queiroz. Outro momento marcante foi o que considera “um privilégio”: ter integrado o elenco do espetáculo Até Amanhã, do diretor Eliézer Rolim, que inaugurou – em 26 de janeiro de 1985 – o Teatro Íracles Pires. A propósito, o Ica – como também é conhecido – passa, no momento, por reformas realizadas pelo Governo da Paraíba, obras que, conforme a cajazeirense fez questão de assegurar, “são bem vindas pelos artistas e transformarão o espaço em um grande teatro”. Por tudo o que já lhe proporcionou, sobretudo no âmbito artístico, embora resida, hoje, em João Pessoa, garantiu que mantém uma relação de amor e gratidão para com a sua cidade. “Nunca perdi as minhas origens e ainda continuo visitando-a”, disse ela.

Nascida no dia em 6 de março de 1962, Soia Lira – cujo nome de batismo é Maria Auxiliadora Lira de Souza – lembrou que, nos anos 70, aliada à efervescência cultural, uma das principais características das artes cênicas em Cajazeiras era a criação de espetáculos assinados – e elaborados – de forma coletiva, pois na época existiam seis grupos em atuação. Na opinião da atriz, um detalhe contribuía para manter a chama acesa: ela e seus irmãos moravam na Rua Higino Rolim, a mesma do diretor Eliézer Rolim. Naquele tempo, outro fator aglutinador eram os festivais universitários de teatro que se realizavam em Cajazeiras.

Na edição do festival de teatro que ocorreu em Cajazeiras em 1975, o artista Luiz Carlos Vasconcelos chegou à cidade – oriundo de João Pessoa – para ministrar curso dentro da programação do evento, gostou do que Soia e sua trupe apresentaram. Desse contato surgiu a oportunidade para o aperfeiçoamento – e profissionalização – da artista e de outros colegas na capital, a convite do visitante. Anos depois, em 1984, a atriz ganharia visibilidade quando participou do Festival Brasileiro de Teatro Amador em São Carlos (SP), atuando pelo Grupo Terra no espetáculo Beiço de Estrada, com direção e texto de Eliézer Rolim. Essa performance resultaria no início de uma turnê por algumas capitais do Sul do Brasil, dentro do Projeto Mambembão, realizado pelo Instituto Nacional de Artes Cênicas (Inacen).

Íracles Pires – Na opinião de Soia Lira, o cenário composto por grupos sempre atuantes levaram à criação, em 1985, durante a gestão do governador da Paraíba, Wilson Braga, do Íracles Pires. Também conhecido carinhosamente por Ica, o teatro recebeu esse nome para homenagear a atriz, diretora teatral e radialista Íracles Pires Ferreira, considerada um dos maiores ícones da arte sertaneja e conhecida como a grande dama do teatro cajazeirense, que faleceu vitimada por acidente automobilístico na Bahia, em 1979, antes de ver concretizado o sonho pelo qual lutava: a construção de um espaço para a encenação de espetáculos em sua própria terra. “Ela era uma mulher guerreira, revolucionária”, elogiou Soia.

Depois, ao casar e ter um filho, Soia passou cinco anos afastada dos palcos. Até ser chamada por Luiz Carlos Vasconcelos – autor da adaptação e diretor do espetáculo – para integrar, pelo Grupo Piollin, de João Pessoa, o elenco de Vau da Sarapalha, montagem baseada no conto “Sarapalha”, do escritor mineiro Guimarães Rosa e que estreou em 1992 para inaugurar o Teatro Piollin, mas que terminou cumprindo uma trajetória bem sucedida pelo Brasil – onde recebeu o Prêmio Shell na categoria especial, em 1993 – e em outros países, a exemplo da Argentina, Chile, Venezuela e Alemanha.

Cinema e TV – Irmã de outros dois atores, Nanego e Buda Lira, Soia ainda possui, em seu currículo, uma trajetória bem sucedida no cinema. Nesse sentido, ela destacou algumas produções: O Quinze (drama dirigido por Jurandir Oliveira, de 2007) e Central do Brasil (drama do diretor Walter Salles, de 1998, protagonizado por Fernanda Montenegro e ganhador do Urso de Ouro no Festival de Berlim). E, ainda, por ter integrado o elenco, o longa Tatuagem, de Hilton Lacerda, que ganhou, em agosto passado, o prêmio de Melhor Filme na 41ª edição do Festival de Cinema de Gramado (RS).

Na televisão, a atriz cajazeirense ressaltou sua participação nas microsséries Uma Mulher Vestida de Sol (1994) e A Pedra do Reino (2007), ambas baseada na obra homônima do paraibano Ariano Suassuna, dirigidas por Luiz Fernando Carvalho e exibidas pela Rede Globo.

Tablado – Nas artes cênicas, mencionou, além de Vau da Sarapalhu, o espetáculo Retábulo, adaptação de Luiz Carlos Vasconcelos da narrativa “Retábulo de Santa Ioana Carolina”, narrativa do livro Nove Novena, do escritor pernambucano Osman Lins, que o Grupo Piollin estreou em 2010.

GUILHERME CABRAL É JORNALISTA. MORA EM JOÃO PESSOA (PB)

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