Sem qualificação, Nordeste vai estagnar


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Investimentos em políticas de fomento industrial são ainda importantes para o crescimento do Nordeste, mas sem o acompanhamento de incentivos à qualificação profissional e educação tecnológica o desenvolvimento da região não passará de uma ‘estagnação econômica’ disfarçada de prosperidade.

Economistas, educadores e especialistas são incisivos quanto ao desenvolvimento nordestino: sem capital humano adequado, nunca chegaremos aos índices econômicos do Sul e do Sudeste.

Autor do livro ‘Desigualdades Regionais no Brasil’ e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o economista Alexandre Rands, que possui doutorado pela Universidade de Illinois, Estados Unidos, é um desses especialistas que afirmam que o país apostou em políticas equivocadas para o desenvolvimento do Nordeste. “A política regional no Brasil tem como base o estudo de Celso Furtado, que achava que para se desenvolver precisava industrializar e tudo que se fazia de políticas públicas era apoiar o desenvolvimento industrial, com infraestrutura, subsídios e taxas de juros para indústria. Esse é um modelo equivocado de desenvolvimento”, explicou Alexandre Rands.

Na avaliação do pesquisador, os investimentos públicos para desenvolvimento no Nordeste, galgados na riqueza via industrialização, quase não contribuíram para que a região apresentasse um salto significativo na sua prosperidade econômica. “Se você analisar desde os anos 60, quando se criou esse modelo de política da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), não mudamos quase nada, continuamos estagnados economicamente. O PIB per capita continua girando entre 47% e 50% do PIB per capita brasileiro e isso é reflexo do modelo de desenvolvimento adotado”, destacou.

A afirmação é também constatada na análise dos dados da Conta Nacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que, no período dos últimos 15 anos, mostram um crescimento de apenas 1,5 ponto percentual na participação do Nordeste no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, passando de 12%, em 1995, para 13,5%, em 2010, uma média de 0,1 por ano. Nesse mesmo período, a região cresceu acima da média do país, apontando que o crescimento, pobre em qualificação, não agregou valor à riqueza com a forte expansão econômica.

Este cenário de patinação econômica, segundo Alexandre Rands, está diretamente ligado ao fraco investimento em capital humano na região Nordeste, daí a urgência em adotar um novo modelo para o desenvolvimento nos Estados nordestinos, pois só assim será possível chegar perto dos índices registrados nas regiões Sul e Sudeste. “Nós nos mantemos em situação de pobreza. É óbvio que as políticas dos últimos governos federais fizeram com que muitos nordestinos saíssem da miséria, mas ainda estamos muito longe da realidade do Sudeste e, enquanto não for estabelecida uma reforma política que priorize o capital humano, não teremos condições de nos equipararmos”, enfatizou Alexandre Rands.

Segundo o professor, quando se fala em investimentos em capital humano, ainda há forte desigualdade entre as regiões, fator determinante para acentuar o contraste entre as Sul, Sudeste e Nordeste. “No Nordeste se gasta por aluno em média 60% menos do que se gasta em São Paulo. Enquanto estivermos com esses índices de investimento, esqueça a igualdade entre Sudeste e Nordeste, você vai continuar criando um cidadão nordestino de segunda classe”, provoca.

Em tom de indignação, o especialista enfatiza a desigualdade em investimentos adotados pelo país. “Cada estudante nordestino recebe menos investimentos do que o estudante de São Paulo. São dois estudantes iguais, um é tão brasileiro quanto o outro, mas ainda assim o país vai investir mais no do Sudeste que no do Nordeste. Não é justo! É continuar criando indivíduos para margem”, critica.

Rands teceu duras críticas à Sudene, àquilo que chamou de “equívoco de prioridades”. O órgão esqueceu o mais importante para a prosperidade da região: a educação. “Não há exemplo no mundo onde a política adotada pela Sudene tenha funcionado. Todo país desenvolvido no mundo investiu em capital humano. Esse pensamento de industrializar e industrializar é ‘jurássico'”, avalia.

JORNAL DA PARAÍBA

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