Cajazeiras-PB, 20/10/2017

Segundo Censo, 129.900 negros abandonaram os estudos na PB

NEGRA

Miriam dos Santos tem 23 anos, mora na comunidade Padre Zé, em João Pessoa, e logo cedo teve que começar a trabalhar, o que fez com que ela abandonasse os estudos ainda na segunda série. Além de humilde, ela é negra. Assim como ela, outras 129.900 pessoas pardas ou negras entre 18 e 24 anos abandonaram as salas de aula, número que representa quase o dobro do número de brancos, 65.603. Os dados são da pesquisa ‘Estatísticas de Gênero: uma análise dos resultados do Censo Demográfico 2010’, que demonstram que, ao todo, 199.320 paraibanos deixaram os estudos de lado antes da conclusão (sem terminar e educação básica).

Do total de pessoas que abandonaram precocemente as salas de aula no Estado, 55,87% são homens, ou seja, 111.365 pessoas, enquanto que 44,12%, mulheres, o equivalente a 87.955 pessoas. Entre os homens desistentes, os negros foram maioria, representando 65,22% do total (72.641). Os brancos, por sua vez, foram 33.12% do todo (36.890).

Se comparadas às mulheres brancas e negras, as estatísticas se assemelham. 57.260 mulheres pretas ou pardas (65.1%) deixaram as salas de aula, ao passo que 28.713 mulheres brancas (32.64%) abandonaram os estudos precocemente.

Esses números são relativos a todo o Estado da Paraíba, porém se analisada a situação de João Pessoa, especificamente, observa-se que a tendência se perpetua. Na capital, a evasão escolar antes da conclusão dos estudos entre a população que tem de 18 a 24 anos atingiu 24.211 pessoas, das quais 15.613, ou seja, 64,48%, são negras ou pardas. As brancas, em contrapartida, representaram 33,63% do total, 8.144 pessoas.

Do total de pessoas que desistiram dos estudos na capital, 12.960 são homens (53,52%) e 11.251, mulheres (46.47%).

Dos homens, 64,72% são negros, o equivalente a 8.389 pessoas, enquanto que 33,9% são brancos, ou seja, 4.394 pessoas. As mulheres negras ou pardas representaram 64,2% do todo (7.224 pessoas), já as brancas foram 33,33% do total de mulheres que abandonaram as salas de aula (3.750 pessoas).

No caso de Miriam dos Santos, que hoje está desempregada, mas faz bicos como cuidadora de idosos, a falta de condições financeiras em casa foi o que a obrigou a escolher entre estudos e trabalho. Para ela, não foi uma escolha fácil e é uma realidade que ela espera poder modificar um dia. “Eu parei na segunda série. Depois comecei a trabalhar, casei, engravidei, e aí ficou ainda mais difícil. Agora minha filha vai completar 3 anos e eu vou colocá-la na escolinha. Quando isso acontecer, eu espero ter um pouquinho mais de tempo para voltar a estudar. É um dos meus sonhos poder, um dia, cursar o ensino superior”, declarou.

Assim como ela, sua irmã, a dona de casa Daniele dos Santos, de 19 anos, também teve que deixar os estudos, porém no seu caso o empecilho foi a gravidez. Ela é surda e estava matriculada na 6ª série do ensino fundamental. “Os professores dela ainda disseram que ela podia voltar a estudar e até levar a bebê, mas agora ela tem apenas 3 meses, é novinha, não dá ainda. Mas ela quer voltar, quando der”, garantiu.

O caso das irmãs se assemelha ao do repositor Emanuel da Silva. Ele tem 20 anos e há cinco deixou os estudos de lado. Ele começou a cursar o ensino médio, porém veio uma gravidez inesperada de sua namorada, o que fez com que ele precisasse trabalhar. “Eu não sei se um dia voltarei a estudar. É muito difícil, tem escola, mas a gente tem que trabalhar. Hoje eu tenho uma filha de 5 anos para sustentar e estudar vai atrapalhar um pouco, mas eu espero um dia poder voltar a estudar, porque no mercado de trabalho a gente vê que é preciso termos um pouco mais de estudo”, comentou.

EM CAMPINA, 10.462 NEGROS ABANDONARAM A SALA DE AULA
Em Campina Grande, segundo o Censo de 2010 do IBGE, num universo de 15.650 que jovens saíram da escola, 5.023 desses são brancos, enquanto que 10.462 se declararam negros ou pardos.

Segundo o professor de história da cultura afrobrasileira da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Luciano Mendonça, a evasão escolar no contexto de Campina se deve ao fato de o racismo atuar de forma imperativa e que para combatê-lo é necessário investir em práticas inclusivas, o que não vem acontecendo há muito tempo.

“O preconceito contra a população negra, seja ele explícito ou implícito, acaba interferindo na permanência do aluno em sala de aula. Além da precariedade das escolas públicas, a falta de experiência dos profissionais em lidar com a temática da inclusão social dos negros contribui para essa evasão”, esclareceu.

Ao contrário do que apontou o professor, a direção da 3ª Região de Ensino, considerou que um dos fatores que contribuíram para a evasão escolar não só dos negros no Estado, foi a implantação das escolas de tempo integral na rede estadual de ensino.

De acordo com a entidade responsável pelo ensino público em Campina Grande e mais 18 cidades, muitos estudantes estão optando por fazer cursos técnicos, ou vão para o mercado de trabalho ao longo do ano letivo, o que provoca a saída dos jovens das salas de aula de Ensino Fundamental e Médio.

“Essa é uma tendência natural dos alunos, não é uma questão de falta de vagas ou de incentivos por parte do Estado. O que vemos é que pela necessidade do emprego, muitos jovens optam por trabalhar ao invés de continuar na escola. Exemplo disso foi o crescimento do número de escolas em tempo integral, que faz com que o aluno passe o dia inteiro estudando. Mas, estamos desenvolvendo alternativas e programas para cada vez mais manter nossos alunos na escola, sejam eles de qualquer classe social ou cor”, comentou Ítala Jitana, diretora da regional de Ensino de Campina Grande.

A reportagem tentou contato com a Secretaria Municipal de Educação para falar sobre o assunto mas, até o fechamento desta edição não obteve resposta.

JORNAL DA PARAÍBA

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