Saudades comestíveis


Hoje, deu-me uma certa e inexplicável vontade de falar sobre saudades comestíveis. E o porquê disto me remete aos tempos de criança, quando – sem preocupações maiores a não ser a de estudar e comparecer às aulas nas boas escolas da cidade (Grupo Escolar Mons. Milanez ou Grêmio Artístico Cajazeirense) que nos encaminharam às escolas da vida – nos divertíamos caçando passarinhos (o que ainda não era proibido) ou desfrutando dos sabores encontradiços nos sítios ou nas periferias citadinas: amendoim (chamávamos de “midubim”), macaúba, tamarindo (chamávamos de “tamarina”), groselha, cajarana e outras tantas frutas que apanhávamos de graça, sem que ninguém nos importunasse, ou mesmo comprando, “a preço de bolacha”, nas feiras livres da cidade.

Mas o que nos trazia água à boca era o chamado “pão jacaré”, ou “pão saora”, sem falar nas broas, brioches, pão aguado, pão carteira, pão crioulo, pão francês, pão sovado, pão seda, pão sem-mistério, pão recife… É que , relendo o livro “O Pão da Memória”, de autoria de Severino Cabral Filho, vem-nos uma saudade imensa do seu pai “Seu Saora” que, de porta em porta, no início da tarde, saía apregoando e insuflando o nosso desejo comestível: o famoso e tradicional “pão jacaré”, hoje rememorado como “pão saora”. O seu grito era convidativo: “Chora, menino, pra comer o ‘pão saora’ ”. Como se diria hoje: Que belezura! (Gosto semelhante, somente nos trazia o doce “quebra-queixo”, vendido na Praça dos Carros…)

Se o leitor, como o cronista, gosta de relembrar esses tempos, tomo a liberdade de encaminhá-lo à leitura da obra citada, que nos faz voltar às lembranças de um passado recente, valorizando-as ainda mais. Nele se fala da fugacidade do tempo, mas fala-se também dos velhos padeiros que permanecem vivos no nosso imaginário: Seu Saora (Severino Cabral dos Santos), Zeca da Padaria, Raimundo Florêncio… E, se outros não cito, é que ainda havia o costume de comprarmos o pão nas bodegas que nos ficavam mais próximas e, mesmo em se tratando do “pão dormido”, ele nos era imprescindível no café da manhã. Bons, saudosos e apetitosos tempos aqueles!…

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