Cajazeiras-PB, 18/11/2017
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Por que palavras?

A linguagem humana é uma dádiva. Graças à nossa capacidade de elaborar conceitos e desenvolver idéias através da palavra, realizamos grandes coisas. A palavra também nos deixa mais perto da compreensão. Age como um catalisador de opiniões, criando um campo aberto para que a barreira da ignorância seja superada. Mas ela também pode ser mal empregada, e tornar-se a maior fonte de toda a cruel indiferença entre os homens. Porque não são muitos os que logram reconhecer o significado essencial do verbo, a linguagem por trás das palavras. Todos somos presas fáceis da sedução dos termos, e sempre os interpretamos à luz de nossas próprias concepções. Assim, a palavra deixa de ser o meio de união e torna-se – ela mesma – sua própria antítese: será sempre através da palavra que deixaremos de compreender, e sucumbiremos ao simples “interpretar”. Em algum momento do tempo, perdemos a capacidade de apreender a linguagem sob a marca da sensibilidade perceptiva e sucumbimos ao uso das palavras como subproduto de um racionalismo egoísta, e assim criamos nossa Torre de Babel. Aprendemos muito a pensar e conceitualizar, mas deixamos de concordar.

Mas a linguagem não se restringe a signos vocais ou escritos. A palavra não se limita ao que é dito. Apesar de seu grande afastamento dos aspectos naturais e vívidos do ritmo universal e de seu mergulho no artificialismo, a humanidade ainda abriga em si a dádiva da percepção não-verbal, da sensibilidade para o que é anímico e crucial. Os signos extrapolam os sons articulados e sinais escritos. Há a linguagem do mundo. Mas quem sabe ouvi-la? Quem sabe ouvir o silêncio, reconhecer as palavras que nunca são ditas?

Compreensão e entendimento, linguagem e significados, opiniões e conceitos. São tantas as facetas perceptivas que as palavras apresentam, e todas elas dependem de apenas um único fator mental: nosso grau de discernimento. Uma simples palavra pode ser interpretada de forma distinta, apesar de todas as definições pré-estabelecidas, apesar da própria realidade dos fatos. Ao proferir a palavra “amor” para dez pessoas, pode-se estar sendo compreendido de dez formas diferentes. E por que o entendimento é tão difícil às vezes? Porque quando entramos em contato com a palavra, nós nos prendemos à sua abstração disfarçada de realidade concreta, e não observamos o sentido essencial que ela aponta – e às vezes nem mesmo sabemos que tal essência existe. Entendemos a palavra do modo que nossas expectativas ansiosamente a definem, e não apreendemos o significado fundamental a que ela simplesmente alude. Olhamos o dedo, e não a lua que ele aponta. Eis porque muitas vezes agimos, falamos e pensamos coisas que podem fazer mal a nossos corações, e aos corações alheios. O grande mal da Torre de Babel é fazer aflorar nos lábios e nas letras toda a doença da incompreensão que caracteriza as mentes de muitos homens e mulheres.

Mas como praticar o dom da palavra? O primeiro passo para aprender esta arte é calar-se, e escutar atentamente. Curando nossa tendência a nos expressar inexoravelmente, sem jamais praticar a paciência de escutar ou entender, aprendemos a reconhecer melhor o sentido de nossos pensamentos e opiniões. Ao fazer isso, atingiremos o entendimento crucial daquilo que estamos imaginando expressar, e assim saberemos se o que estamos dizendo é correto. O mesmo processo se dá para as palavras alheias. A base da discordância entre os homens está no fato de que nos apegamos aos nossos argumentos, continuamos falando ou nos expressando sem prestar atenção a mais nada, e nos prendemos ao sentido frio dos termos, ficando surdos ao que é dito pelos outros. E então, esquecemos de que o ato de compreender deveria ser o objetivo de todo diálogo. Sem compreensão atenta, a palavra se limita a exprimir os ecos de nossas próprias ilusões, fantasias, racionalismos, ódios ou preconceitos.

Ouvir atentamente não é fácil. Corremos o risco de ouvir coisas duras e cruéis. Podemos ter que nos defrontar com idéias e opiniões constrangedoras, assustadoras e desprezíveis. Mas sem o esforço da escuta atenciosa, jamais saberemos usar a palavra com sabedoria. É preciso mergulhar fundo nas palavras alheias para que possamos expressar nossas próprias palavras com cuidado e correção. Entretanto este enfrentamento não significa nem justifica agir com arrogância ou combatividade; podemos ouvir e falar sem cair na dor da disputa, da ofensa ou da agressão. Eis a Palavra Correta, o melhor modo de atingirmos os méritos da linguagem verbal e escrita.

Mas o caminho das palavras vai além, muito além. Apreendendo o sentido dos termos, precisamos também apreender sua insubstancialidade, seu vazio, seu significado oculto. O mistério da Palavra é profundo e poderoso, mas completamente passível de ser atingido por qualquer um. Por trás de tudo o que eu digo – seja verdadeiro ou falso, consciente ou auto-iludido – minha verdadeira face se apresenta. Toda a nossa condição humana depende de como sabemos expor nossas idéias, e o quanto estas idéias representam as verdades mais saudáveis da sabedoria humana. Não há como disfarçar o engano e a falsidade nas palavras; mesmo aqueles que são capazes de suprema dissimulação, jamais lograram manter sua falsa palavra por muito tempo. Da mesma forma – e pelos mesmos motivos – que as mentes violentas, cruéis e fanáticas são incapazes de sustentar seus erros por muito tempo sem cair no esquecimento, descrédito ou vergonha, também as palavras brutas, frias, insensíveis ou imaturas não se sustentam mais do que bolhas de sabão.

O caminho da eloqüência e sabedoria passa por grandes descobertas humanas, e engrandecimento pessoal. Será através dele que poderemos atingir a outra margem do rio da existência. Naquela margem habita o segredo mais belo e valioso da vida: coerência nas ações e economia de palavras.

SOBRE ANDRÉIA BRAGA

ANDRÉIA BRAGA

Professora e assistente social.

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