PMDB: de Ulysses Guimarães a Romero Jucá


O PMDB de hoje está longe de ser o Movimento Democrático Brasileiro – MDB. Mudou. Mudou para pior. Mas não foi da noite para o dia. Com o passar do tempo se foi ajustando às circunstâncias, decaindo, perdendo o brilho e a vergonha. O MDB nasceu em 1965 quando o movimento de março de 1964 sofreu derrota nas urnas. Recorde-se que na estrutura partidária, amparada na Constituição democrática de 1946, havia três grandes partidos nacionais: PSD, UDN e PTB, que a cada eleição se coligavam aos menores nos estados e nas disputas presidenciais. Até a eleição de Jânio Quadros, em 1960, a hegemonia era da aliança PSD/PTB, costurada por Getúlio Vargas. Nem a loucura de Jânio alterou essa situação.

A mudança veio com o golpe de 1964.

Os militares mantiveram as eleições, tentando dar aparência democrática ao regime. Mutilaram o sistema político-eleitoral para adaptá-lo a seus objetivos. Não deu certo. Nas eleições estaduais de 1965, a derrota em Minas e Rio de Janeiro levou pânico ao poder militar. No mesmo ano, o Ato Institucional nº 2 extinguiu os 13 partidos políticos que existiam. Logo em seguida, inventaram o sistema bipartidário de fato, com a criação da Arena e do MDB. Um, para dar sustentação parlamentar à ditadura, o outro, para fazer oposição consentida. A dinâmica da sociedade, todavia, transformou pouco a pouco o MDB numa grande frente que abrigou militantes e simpatizantes dos partidos clandestinos, democratas de verdade e segmentos sociais marginalizados pelo regime instalado pelo golpe.

Esse quadro durou até 1979.

O desgaste irreversível da ditadura alterou a estratégia do poder. Voltou-se então ao multipartidarismo, com o objetivo de fracionar os adversários do regime. Assim, as novas regras legais permitiram a criação de vários partidos. A Arena gerou o PDS, o MDB virou PMDB e surgiram o PT, PTB, PDT, PSB e, ao longo dos anos, essa enxurrada de arapucas que conhecemos.  Muitos trocaram de nome. Menos o PMDB, que se desfez como frente ideológica, tornando-se um conjunto de fato de partidos estaduais, manteve enorme capilaridade no território nacional. Conta com a maior representação no Congresso, é campeão do horário gratuito na televisão e no rádio e recebe maior cota do fundo partidário.

O PMDB é a noiva ideal.

Digo noiva por delicadeza. Algumas sessões estaduais seguem sob o comando de políticos comprometidos com princípios democráticos, como José Maranhão, Jarbas Vasconcelos, Roberto Requião. Poucos. Nada parecido com o MDB/PMDB do destemido Ulisses Guimarães. Basta conferir. Hoje o presidente do PMDB é Romero Jucá. Um pernambucano que se fez político ocupando cargos insignificantes até chegar à direção da FUNAI. A partir dali montou base política no inexpressivo estado de Roraima. Maleável, Jucá serve a qualquer governo. Foi líder de Lula e ministro de Temer, sem corar. Sequer mexe um nervo da face diante das acusações de corrupção.

Agora Jucá manda no PMDB.

Expulsou do partido a senadora Kátia Abreu. E tenta fazer o mesmo com figuras simbólicas como Jackson Barreto e Jarbas Vasconcelos. Estes dois estruturaram o velho MDB em Sergipe e Pernambuco, numa época em que ele, Jucá, lambia bota de general, como diria o saudoso deputado Bosco Barreto. É triste ver o PMDB de Ulysses Guimarães entregue a quem, impregnado de malfeitorias, no gozo de foro privilegiado, articula o desmanche das investigações da PF, do Ministério Público e da Justiça.

O autor integrou o diretório estadual do PMDB do Ceará, de Pernambuco e foi candidato a prefeito de Cajazeiras.

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