Pequenas mudanças

TATYANA
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A sua presença, cada vez mais visível nos oitões das casas, vem desenhando novos traços na paisagem sertaneja. Sua forma cônica e a cal branca que limpa suas paredes a torna uma referência na cinzenta tela na caatinga tão ávida de água e de verde. Mas elas não são apenas traços e contornos que alteram e modificam a paisagem. Trazem, em sua concepção, toda uma carga de sentidos e significados que constroem e inventam novos desenhos no imaginário social de uma gente que, tradicionalmente, foi instruída a ver a água como dádiva ou esmola de alguns poderosos.

As cisternas que, concebidas da inventividade dos sertanejos, nascem como uma possibilidade de convivência entre homem e natureza, inventando uma nova maneira de ver as estiagens, trazem também novas construções humanas. Homens e mulheres que ganham a autonomia e a prerrogativa de decidirem e terem o controle sobre um recurso essencial e fundamental a vida. A água da chuva que cai nos telhados e é canalizada por calhas até as cisternas se transformam em instrumento de promoção de dignidade. Mesmo chuvas escassas e esporádicas são suficientes para abastecer os reservatórios que, com capacidade para guardar dezesseis mil litros de água, representam uma importante estratégia de segurança hídrica.

Outro elemento que favorece a mudança do imaginário social e político que as cisternas promovem é a sua capacidade de libertar os homens de uma dependência política e cultural com as engrenagens que, tradicionalmente, instituíram a indústria da seca nessa região. Uma indústria que, capitaneada por uma oligarquia conservadora, transforma as estiagens em problema político e os flagelados em matéria-prima da produção do clientelismo, da servidão e da dependência.

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Práticas industriais que se traduzem nas grandes barragens e nos açudes construídos com recursos públicos em propriedades privadas. Nas cercas, reais e políticas, que segregam os sedentos e transformam a água em fonte de riqueza e em moeda de barganha eleitoral. Uma moeda cunhada nos famosos carros pipas que, nas estiagens, cortavam as poeirentas estradas e trilhas da caatinga molhando, a conta gotas, as secas gargantas sertanejas. Gotas de água controladas por prefeitos, vereadores, deputados, governadores que, manipulando o sofrimento que a seca traduzia, ganhavam projeção política como “benfeitores” capazes de se apiedar das agruras dos sertanejos, lhes fornecendo água em tributo a votos, subserviência e gratidão.

A cisterna pode não representar a solução final, mas, certamente, representa o início de uma mudança que, inapelavelmente, vem transformando homens e paisagens em cenários mais alegres e humanos. E as tintas e pinceis nascem da imaginação criativa de quem conseguem ver que é possível mudar o mundo mudando as pequenas coisas e alterando a paisagem sem modificar seu curso natural.

MARIANA MOREIRA É PROFESSORA UNIVERSITÁRIA

ELIANE BANDEIRA

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