Cajazeiras-PB, 11/12/2017
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[PEPÉ PIRES FERREIRA] Dez Centavos e as flores do mal (parte 2)

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Escrevi no último texto que iria voltar a esse assunto das drogas, mas haja vista a repercussão (umas poucas pessoas vieram comenta-lo), retorno ao tema. Minha mãe dizia que um meio muito certo de se chegar ao céu é conhecer o caminho do inferno para poder evita-lo. Assim, vou dividir com meus parcos leitores algumas pedras desse caminho que conheço (não são tantas assim, senão dava para ver o rabo e o tridente), e assim, deixar o assunto “quente”, e poder encaminhar alguma providência.

Em primeiro lugar, ouvi um comentário de um apelo patético da irmã de José Wellington, que teria dito que poderia se ajoelhar aos pés do(a) juiz(a) para que se determinasse o internamento compulsório do Dez Centavos, porque ninguém da família estava aguentando e o mesmo já estava ficando violento. Depois ao ter uma conversa uma pessoa minha amiga, Gil que trabalha no CAPS AD e tem já conseguido recuperar alguns dependentes, segundo ela, se ela colocasse o nosso José Welligton sem seu consentimento, ou sem determinação judicial, era ela quem iria pra cadeia.

Pois é, seria coisa do Estado fraco, não o a Paraíba, mas o Estado como ente coletivo, que começa em Dilma, passa pelo locutor que vos fala, e chega até o mais humilde dos seus jurisdicionados, aquele negócio do “não é comigo” institucionalizado, e enquanto se fica apenas a participar da marcha contra as drogas (como se tivesse alguém fosse “a favor”), e achasse que já teria desempenhado seu papel. Perdoem o mau gosto da expressão, mas o buraco é bem mais em baixo, a situação é um pouco mais grave do que o grosso da população pode achar.

Vou dizer, conforme me foi contado, como se deu e dá a “queda” do nosso Dez Centavos. Segundo vizinhos dele me informaram: ele era um sujeito absolutamente normal, que foi a São Paulo para o corte de cana, como acontece com muitos jovens daqui, experimentou o crack, este tornou-se a razão de ele viver, foi mandado de volta, trocou tudo que tinha, e fica aqui a pedir a todos que encontra uma contribuição para satisfazer seu vício, e a gente (eu incluso) entrega o óbulo a ele para se ver livre, apenas como ele não é violento, não arromba casas, e pratica outros delitos (um dono de farmácia me contou que uma senhora perdeu R$ 20,00 reais e ele apanhou e devolveu à dona), e se fica adiando algum tipo de solução que não seja paliativa.

As Flores do Mal (as viciadas) tem um meio de conseguir recursos, a “mais antiga profissão do mundo”, mas os homens, ou aderem ao tráfico – viram os populares “aviões”, cometem delitos, ou ficam como nosso personagem, a mendigar até conseguir os cinco reais para mais cinco minutos no paraíso. Outros e outras que tem casa, mantém umas “casas de pedágio” onde outros vão usar e deixam o do dono.

Enfim, o que a gente (pessoas ditas normais), faz é se manter à distância, o que não é de todo mal, pois se ninguém tivesse apresentado a maldita a Dez Centavos, certamente dele nem estaríamos falando, mas às vezes o mal pode bater à sua porta ou de alguém de quem você gosta, e como nada foi feito antes, fica mai difícil consertar.

Vou contar três pessoas que conheci e me conheceram: Popaye, Minéia e Nenem de Bié. Todos eles eram usuários e foram brutalmente assassinados, no caso do primeiro, a sua mãe pediu até nas rádios, que fizessem alguma coisa com ele, até bota-lo na cadeia, mas no caso que relato, ninguém fez nada, e o mesmo foi à Sousa, se envolveu em um tiroteio com a polícia, e se foi, os outros dois, tiveram destino parecido. Nenhum deles matou ninguém, e não tem pena de morte no Brasil, mas por causa desse nosso Estado Fraco, não se tomou providência, e ele tiveram fim trágico.

Agora temos algo a comemorar: pelo menos duas Flores do Mal, por uma série de causas, inclusive sorte, família e elas mesmas, até agora aparentemente superaram esta inferno. Uma delas que não vou revelar o nome, vivia na BR 230, se arriscando a ser atropelada, para se prostituir e conseguir o do vício, hoje, até com ajuda de igreja, segundo vi e da família, que uma vez quando ela caiu, foi procurá-la nas casas de pedágio, para que ela fosse “continuar o tratamento”, Esta casou e é mãe. São essas pequenas vitórias que deviam nos servir de guia para continuar essa guerra, mas enquanto duas ou três saem, vinte ou trinta entram, e dão causa a alguns demagogos que dizem: se tirar um dependente das ruas, já me dou por satisfeito; pura balela, querem mesmo que mais dependentes surjam para que possam continuar com seu discurso hipócrita…

Quanto a mim, nada fiz além de escrever essas, mas é muito pouco. E não me ofereço para dirigir o ônibus, pois não sei sequer se passei a borboleta: há menos de três anos estava nos bares a beber sem controle e cair pelas ruas. Sempre posso voltar…

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SOBRE PEPÉ PIRES FERREIRA

PEPÉ PIRES FERREIRA

Engenheiro mecânico e advogado.

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