Cajazeiras-PB, 17/10/2017

[PEPÉ PIRES FERREIRA] Crônica de uma tragédia anunciada

IVONE BOUTIQUE(1)

Há algum tempo, no antigo Cine Éden, onde hoje se situa o Supermercado Melo, o teto caiu. Felizmente num domingo, e quando a gente foi ver, o madeirame estava podre, e não suportou o peso das telhas. Pudera: construído nos anos trinta (Meu avô, Adriano Brocos, alugou ternos a rigor em Recife para todos os Matos. Inclusive o Coronel, seu sogro), quando eu conheci o Cine Éden, era de Carlos Paulino, e já era forrado. Provavelmente ninguém se deu ao luxo de vistoriar aquele enorme telhado e oitenta anos depois a Lei da Gravidade, ajudado pelos cupins & cia., fizeram seu trabalho.

Corte. No ano passado, uma vendazinha na Pe. Manoel Mariano “pegou fogo”. Era onde eu comprava sandália, sardinha, cigarro etc., pois abria aos domingos. Eu fui ver e o fogo destruiu tudo, rigorosamente, e nada foi salvo.

Semana passada foi a Ivone Boutique, de João de Deus Holanda e filhos. Mesma coisa: tudo queimado, e não fosse o Corpo de Bombeiros, e o fato de ser ainda dia, e os bêbados do bar de Genésio que viram a fumaça e chamaram os bombeiros,  o fogo teria se alastrado para a vizinhança.

Além do prejuízo material e o trabalho de reconstruir tudo, pelo estado que ficou, a sorte teve papel essencial no fato de o incêndio não se alastrar para outros prédios, sempre no Centro da Cidade, e sempre de grandes proporções, perda total etc.

Possivelmente estes foram em consequência de algum curto-circuito que começou com a fiação elétrica, pois esses prédios antigos são forrados para dar uma aparência de novo entre o forro e o telhado sempre passam entre outros bichos; ratos, e ratos mordem tudo até os fios da instalação elétrica feita há pelo menos trinta anos. O resto, é que o teto de telhas de barro é pesado, e quando a madeira queima, arreia tudo. Absolutamente imperceptível, a não ser depois do estrago feito.

Para nossa sorte, o fogo não se alastrou para o Mercado Central, de estrutura semelhante, maior e mais inseguro, mas temos que admitir: estamos muito mais vulneráveis do que supomos. Se tivesse o fogo atingido, ou seja, nas condições atuais, quando o Mercado Central, ou outros prédios do Centro se incendiar(em), a coisa vai ser feia, e Cajazeiras volta às manchetes nacionais por motivos desabonadores; a coisa é séria, e as providências que se tomam na realidade são omissivas ou agravantes para essa situação de instabilidade quanto a incêndios.

Uma causa é que existe um perímetro tombado pelo Patrimônio Histórico, como área de preservação não sei de quê. A Matriz, a Catedral, e outros prédios, esses precisam serem preservados. Mas nem em todos os prédios Padre Rolim morou, a Independência não foi proclamada aqui, nem o Imperador, nem um presidente, nem ninguém importante viveu aqui, a maioria desses prédios não tem nenhum sentido para a História nem da cidade, e se fica a proteger o velho, sem que existam recursos públicos para tanto, pelo menos eu nunca vi.

E o resultado é que ficam um monte de prédios paulatinamente abandonados, os proprietários sem poderem reformar (o custo é caro) e sem que hajam compradores para esses prédios. Negócio de preservação existe um custo e alguém tem que bancar… Quem? O Iphaep eu nunca vi nada além de proibir, se alguém tiver que conservar, “não é com ele”. E com quem seria? Em Recife, o Centro Histórico (Maurício de Nassau e outros figurões da nossa História viveram lá) Houve enorme aporte de verbas, inclusive Federais para tocar o projeto, diferentemente daqui, somente um grande milagre de Pe. Rolim, que ninguém procura nem onde foi enterrado, e não existem motivos para ele se interessar em interceder ao criador…

Então fica a decadência a se instalar, vários prédios abandonados e os que ficam, em condições muito precárias, eu, que sou especializado em Engenharia de Segurança do Trabalho, nunca vi um extintor de incêndio em nenhuma loja no Centro da Cidade, posso Estar enganado, mas mais de 90%, com certeza não tem nenhuma defesa contra fogo, e outras condições que levam a riscos diversos, exatamente como a Boate Kiss, no Rio Grande do Sul, que o dono retirou os extintores para caber (matar) mais gente.

Aqui só não é zero, porque existe o Corpo de Bombeiros Na cidade, mas somente para informação do leitor, somente um hidrante para atender toda a cidade…

Graças a Deus não morreu ninguém essa semana, meus chegados tão se acabando, ou a foice da maligna deu uma trégua. Espero que dure um pouquinho.

P.S.: Sobre o último texto publicado, conversando com Reudisman Lopes, ele me esclareceu que Fonfon jogou no Santos de Sérgio David e não no Estudante; são as teias de aranha que estão se formando nos meus neurônios; 64-66, eu era um menino na época: Fazem bem 50 anos… Mas Obrigado e faço a reparação.

SOBRE PEPÉ PIRES FERREIRA

PEPÉ PIRES FERREIRA
Engenheiro mecânico e advogado.

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