Cajazeiras-PB, 21/10/2017

Os três patetas

O ano era 2001, a modorrenta Cajazeiras do inicio do século XXI começava a dar os primeiros sinais de ebulição no seu crescimento desordenado, nas ocupações de seus espaços urbanos em função do desrespeito total ao nosso velho código de postura do município. É aí que se registra a primeira vitima deste desordenamento: O nosso velho aeroporto Antônio Tomás.

O primeiro ataque surgiu quando através de uma decisão equivocada do município, logo no inicio dos anos 90, resolveu implantar nas suas margens um conjunto habitacional travestido de uma agrovila, sem contar ainda com uma torre de uma emissora de radio fincada na cabeceira da pista que sepultava de vez os planos de expansão daquele aeroporto. Não deu outra, a agrovila que de agro não tinha nada, literalmente engoliu o nosso aeródromo a tal ponto que as operações de pousos e decolagens eram precedidas de uma verdadeira operação de guerra da Policia Militar com homens e viaturas impedindo a passagem de carroças, motos, burros, jumentos, desobstruindo a pista para garantir a segurança do voo.

Depois destes sucessivos constrangimentos o Cajazeirense chegava a triste constatação: Não tínhamos mais aeroporto. Foi aí que resolvemos agir, fomos ao prefeito da época, Carlos Antônio, que se mostrando extremamente preocupado com o problema nos autorizou a encontrar um terreno propicio que faria a doação para a construção da obra.

Éramos três, dois engenheiros e um professor universitário, representantes da sociedade civil organizada que abraçaram a causa de trazer de volta o nosso aeroporto. O primeiro passo foi identificar as áreas de topografias favoráveis onde possivelmente poderiam ser implantado o nosso futuro aeroporto. Visitamos varias áreas e selecionamos duas: Uma no sitio Santo Onofre e a outro no Vale Verde. A primeira apesar de uma topografia razoavelmente favorável no seu topo foi descartado pelo acesso extremamente acidentado e a distancia da sede do município. Ficamos com a segunda opção. A área no sitio Vale Verde era próxima da cidade e tinha um grande diferencial, pois era localizada às margens da BR 230 saída para o Ceará. Bingo! Batemos a parada, mas o melhor estava por vir. Fui informado que a área que acabávamos de escolher era de propriedade de um abnegado cajazeirense, o medico José Maria Moreira. Ao abordar o Dr. Zé Maria com a proposta de comprar uns vinte e cinco hectares de sua fazenda com o intuito de construir o novo aeroporto da cidade. Ele foi curto e grosso e falou: “Dr. Alexandre, o Senhor me conhece e sabe do meu comprometimento com Cajazeiras e venho acompanhando a sua luta para resgatar o nosso aeroporto”. Vender Não! Eu Vou é doar a área, mas com uma condição. Qual? Retruquei. O nome do futuro aeroporto tem que levar o nome do meu pai, Pedro Moreira. Levei um susto, mas reagi rápido: Fechado! Nascia ali o Aeroporto Pedro Vieira Moreira.

Voltei ao prefeito exultante com a novidade, já tínhamos uma área para construir o novo aeroporto, o prefeito vibrou claro, não mais precisava utilizar recursos da prefeitura comprar o terreno. A cidade comemorou o desprendimento do Dr. Zé Maria, a imprensa reverberou com intensidade a noticia alvissareira, afinal era passo inicial para termos nosso aeroporto de volta.

Contudo merece registro um contundente comentário de um festejado radialista local sobre uma foto onde apareciam três figuras emblemáticas embrenhadas nas densas capoeiras do sitio vale verde apontando para o local onde seria o futuro aeroporto de Cajazeiras. Lá estavam: Os engenheiros Alexandre Costa e Stanley Lira e o professor universitário Rubismar Galvão. Em pleno meio dia, sol a pino, cansados, suados, transpondo cercas de arames, mas alegres e felizes.

E foi disparando este ácido comentário que o nosso amigo radialista emendou: Construir um aeroporto em Cajazeiras dentro de umas brenhas destas só sendo coisas das cabeças destes três patetas.

O achincalhe transformou-se em desafio. Partimos para luta, já tínhamos o terreno o próximo passo era o projeto. Foi então que avisado pelo então vice-prefeito Walter Cartaxo que no DER tinha um engenheiro especializado em elaboração de projetos de aeroportos e tamanha foi o nosso surpresa quando o abordamos descobrimos que se tratava do cajazeirense Girleno Rolim, filho do ex-prefeito Antônio Cartaxo Rolim. Não vacilou, abraçou a causa e em noventa dias nos entregou o projeto do aeroporto. Custo do projeto: um fim de semana no Brejo das Freiras custeado pelas entidades do comercio. Coisas de Cajazeiras!

A coisa avançava já tínhamos o terreno escriturado o projeto pronto o próximo alvo era o governador do Estado. Em 2008 o governador Cássio autorizou e contratou uma empresa para desmatar a área doada pelo o Dr. Zé Maria, faltava a obra. Talvez por um golpe de sorte volta ao Governo do Estado um apaixonado por aviação, José Targino Maranhão, era a oportunidade que precisávamos. E foi numa manhã chuvosa do domingo de carnaval de 2009, na residência do ex-prefeito Vituriano que lá estavam Alexandre Costa, Severino Alves, Zerinho, Raimundo Junior e José Cavalcante com o projeto completo do aeroporto em mãos para formalmente fazer o pedido ao governador para construção da obra, cabendo ao jornalista Gutemberg Cardoso fazer a apresentação do grupo ao governador detalhando o objetivo da comitiva. Maranhão foi direto, recebeu e rapidamente folheou o projeto exclamando: Muito bom! Muito bom!  Quando conseguirem o terreno me avise que vou construir este aeroporto e saindo da sala repassou o projeto para um dos seus assessores foi quando eu o abordei novamente informando que já tínhamos o terreno e que escritura publica já estava anexada ao projeto.  Voltou e de imediato pediu o projeto ao seu assessor e conferiu a escritura publica de doação quase não acreditando no que via, mas não vacilou afirmando: Até o último dia do meu governo Cajazeiras ganhará seu aeroporto.

De fato, neste mesmo ano de 2009 as obras foram iniciadas pelo DER residência de Cajazeiras e aconteceu o que todos anteviam, equipamentos de terraplenagem obsoletos mão de obra limitada enfim a obra não avançava, patinava. A forte pressão das entidades do comércio e da imprensa forçou o governador agir rápido. Licitou e contratou uma empresa para concluir a obra, a CCM – Construtora Centro Minas Ltda. que finalmente executou toda a terraplenagem e asfaltamento da pista de pouso e pátio de estacionamento das aeronaves. Em dezembro de 2010 Maranhão cumpriu parcialmente seu compromisso entregando em solenidade prestigiadíssima o aeroporto com 85% das obras concluídas e honrando o compromisso assumido de denominar aquele equipamento aeroviário de Pedro Vieira Moreira.

Em 2011, inicio dos anos Ricardo Coutinho, voltamos à carga, Maranhão deixou o governo com as obras de do terminal de passageiros e cercas já licitados o que Coutinho executou antes do fim deste ano. Mas literalmente, tínhamos uma pedreira pela frente, na verdade uma grande afloração rochosa nas margens da pista que a SAC- Secretaria de Aviação Civil exigiu toda sua remoção além de executar toda a terraplenagem na área de escape ao longo dos dois lados da pista. Uma obra de um valor considerável que nos custou injustificáveis seis anos para concluir quando novembro de 2016 pousa uma comitiva do governador acompanhado do senador Raimundo Lira com a tão esperada carta de homologação da ANAC. Festa, comemorações, discursos, chororô mas esqueceram de ler nas entrelinhas do documento da ANAC e verificar que o nosso aeroporto estava bichado. Estava impedido de operar com aeronaves movidas a jato e só permitia pouso e decolagens com pequenos aviões com baixa capacidade de passageiros. A imprensa e as redes sociais não perdoaram: aeroporto teco-teco, pista de areia entre outras galhofas.

Hoje, agosto de 2017, trabalhamos para incluir Cajazeiras no PDAR – Programa de Desenvolvimento da Aviação Regional do Governo Federal o que nos assegura investimentos maciços em sua ampliação e modernização.

Com as obras do balizamento noturno recentemente concluídas cai a restrição para operação de aeronaves movidas a jato ficando ainda a restrição mais grave, a limitação para aeronaves de médio porte em função do índice baixo do PCN (Pavimente Classificativo bumber) da pista de pouso. Entendo que superadas estas restrições o próximo desafio e atrair empresas aéreas para implantar linhas regulares beneficio que tínhamos cinquenta anos atrás.

Alexandre José Cartaxo da Costa é engenheiro, empresário e diretor da FECOMÉRCIO-PB

 

SOBRE Christiano Moura

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