Cajazeiras-PB, 16/12/2017
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O ladrão carola

mulher-rezando

Família típica do sertão nordestino, origem rural com um pé na cidade. O pai, Herculano, de um sítio em Nazarezinho, tirava o sustento da família. A mãe, Socorro, em Cajazeiras, administrava a educação da prole que mais parecia um internato. Treze filhos: rapazes, moças, e crianças, sem falar nos sobrinhos e agregados.

A casa era uma festa. Às criaturas residentes e agregadas juntavam-se os jovens da vizinhança. Lá as coisas aconteciam, eram encontrados colegas do colégio e do trabalho, todos tinham algo em comum com aquela família feérica, referência na seresta, no batuque e até nos estudos.

Socorro é a imagem da mãe que todos temos em mente, a fada que tem o condão de manter, proteger e aconselhar. Com seu ombro sempre amigo, sempre consolar seus filhos, inclusive aqueles novíssimos, por mais recente que tivessem feito o parentesco.

A contrastar com a religiosidade extremada da dona da casa estava a irreverência dos filhos, destaque-se o mais velho, Lidonor, recém aprovado em concurso para o Banco do Brasil que, além das noites bem vividas, comandava a molecada, esquentava o samba e provocava episódios curiosos, que iam do chocante ao comovente, do trágico ao cômico, do grotesco ao pitoresco.

Numa madrugada, Socorro acorda com um barulho na cozinha. Pensou ser Lidonor, que não aparecera para jantar, deu pouco caso e voltou a dormir. A coisa aumentou, parecia que a cozinha estava sendo destruída. Aproveitou a zoada, acordou Maria, sua fiel escudeira, e foi desvendar o mistério.

Era um ladrão.

Passado o susto inicial, acometida por mais um surto de piedade e religiosidade, deu-se a catequizar o ladrão. Foi um rosário de conselhos, orações e exemplos. Deus haveria de proporcionar mais oportunidades. O governo teria de providenciar empregos, aquele pobre coitado não arriscaria sua existência não fosse a extrema penúria. O que passaria a família do infeliz se ele fosse preso, ferido ou morto? Era preciso rezar, rezar muito. Só através da oração encontrar-se-ia um caminho.

Quem conhece Socorro acharia perfeitamente normal seus atos de caridade, não aquele. Imagine a quantas não andou a cabeça de Lidonor ao entrar na cozinha de sua casa, em plena madrugada do Sábado, e encontrar sua mãe comandando aquela esdrúxula vigília, formada por ela, Maria e aquele estranho carola, todos de joelho.

Rezando um terço.

VALIOMAR ROLIM PARA O GAZETA DO ALTO PIRANHAS

SOBRE Christiano Moura

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