Cajazeiras-PB, 21/10/2017

O escritor Cristiano Cartaxo

“Sempre me desvaneceu poder ser um construtor. Realizar uma obra que valesse por sua utilidade e por sua duração. Arrependo-me de não ter aposto placas nas minhas inaugurações, para criar meus vínculos com gerações futuras. Infelizmente, muitas de minhas realizações, por falta de um remate, guardam outros nomes, ficando esquecida minha iniciativa e a maior parte da execução. Prefiro, entretanto, outro título – o de escritor. Em suma, o que ficou não é mais o administrador senão o homem de letras”.

Palavras de José Américo de Almeida, em entrevista concedida em 1978. Contava então 91 anos de idade e mantinha lúcida concepção da sua extraordinária caminhada terrena. Promotor público, escritor, secretário de estado, chefe civil da revolução de 30 no Nordeste, ministro, govenador, senador, presidente da UDN. O político que mais fez pelo semiárido nordestino. Naquela ocasião lhe perguntaram: o senhor não se sentiu tentado a dedicar-se exclusivamente à literatura? José Américo não titubeou:

“Bem, se tivesse ficado apenas na literatura, teria sido mais feliz, pois esse é em minha vida o único título que perdura. Fui também administrador e posso dizer, sem falsa modéstia, que realizei. No entanto, essa obra vai sendo esquecida”. E mais adiante, o paraibano de Areia reforçou sua convicção: “Repito, meu título que resiste ao tempo é de escritor”.

José Américo foi um gigante.

Gigante na política, na administração pública, ao realizar análises dos problemas nacionais e do Nordeste, quando os economistas não haviam ainda se firmado como estudiosos da realidade regional. Até no palanque Zé Américo fez-se gigante, apesar de vícios de pronúncia. Mas o pioneirismo de forma e conteúdo social do romance A bagaceira lhe abriu a perspectiva na ficção. Depois vieram O boqueirão e Coiteiros.

Por que relembro isso?

Pela tentação de associar José Américo a Cristiano Cartaxo, seu grande admirador. Por coincidência, os dois nasceram no mesmo ano de 1887. Meu pai não era um gigante, mas dedicou sua vida às coisas do espírito, como ele costumava avaliar sua atuação como professor, cronista, poeta, jornalista, conferencista. É verdade que, ao contrário de José Américo, não teve a oportunidade de colocar placas em obras públicas, no entanto, não se deixou perder no sertão, distante dos centros de irradiação midiática dos feitos literários. Apesar disso e da sua notável timidez, Cristiano aparece com realce na literatura paraibana, em particular como poeta.

Será cabotinismo de filho?

Não, não é. Para homenagear os 130 anos de nascimento de Cristiano Cartaxo, mergulhei em sua vida. Esse mergulho fortaleceu em mim a convicção da importância de sua presença na vida literária de Cajazeiras e do sertão. Presença, aliás, que não se restringe à produção poética. Vai além. Pequena amostra da qualidade do cronista, preocupado com problemas coletivos de interesse da população de Cajazeiras, pode ser constatado no livro Rima e prosa de Cristiano Cartaxo. Ali estão alguns artigos, escritos no meado do século XX, que mantêm atualidade ainda hoje! E registram fatos antigos merecedores de reflexões pela sociedade cajazeirense ainda hoje.

Rima e prosa de Cristiano Cartaxo está na gráfica. O lançado ocorrerá no dia 18 deste mês, na FAFIC, inserido na programação oficial da prefeitura de Cajazeiras em homenagem à data natalícia do padre Inácio de Sousa Rolim. Anote em sua agenda.

SOBRE FRASSALES CARTAXO

FRASSALES CARTAXO
Francisco Sales Cartaxo Rolim é autor do livro, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

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