Cajazeiras-PB, 18/11/2017
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O adeus a Hosmedito, sem tirá-lo do coração

Havia uma recomendação muito especial de minha mãe aos filhos: “casem primeiro com a família” e me incluo entre os que observaram os seus conselhos. Ao ser integrar com a família de sua esposa (o) passa-se a ter o aconchego e a proteção de duas famílias.

Na família de Antonieta, ao longo de quase meio século de convivência, fiz inúmeros amigos e um deles, o seu tio paterno, Hosmedito Cavalcante de Sousa, que residia em Natal, desde o último dia cinco de outubro, foi para a eternidade.

Hosmedito ia completar 92 anos de vida. Nasceu em Alexandria, Rio Grande do Norte e com sete anos de idade ficou órfão de mãe, ficando como grande amigo e companheiro de caminhada, o seu irmão Francisco das Chagas Cavalcante de Sousa, três anos mais jovem.  Um ficou cuidando do outro. Foram criados sem o carinho da mãe, mas sob a vigilância do pai, João Emídio de Sousa e os olhares da nova esposa, Mimosa Sousa.

 

Não se pode falar de Hosmedito, esquecendo o seu irmão Francisco. Dois corpos e uma só alma. Caminharam, cresceram e brincaram juntos pelas ruas de Alexandria. Forjados na luta e na dureza da vida que lhes eram impostas, com muitos percalços, desafios, trabalho e sofrimentos se tornaram homens vitoriosos.

Hosmedito foi mais afeito a grandes aventuras e com sua inquietude trilhou caminhos diferentes ao do irmão Francisco e chegou a migrar para o Norte do Brasil, atraído pela riqueza da borracha, retirada dos seringais, fato que quase lhe custa a vida, acometido que foi pelas doenças próprias da região. Foi preciso a interferência do pai para resgatá-lo com vida, em tempos extremamente difíceis de recursos, num ano de grande seca, 1942, e de comunicação.

Tentou a vida militar ingressando nos quadros da policia, mas descobriu logo no inicio que esta não seria a vida que desejava trilhar e foi preciso a interferência política para se desvencilhar de mais esta aventura.

Mas, posteriormente se tornou um exemplar e produtivo servidor estadual, no Rio Grande do Norte, onde trabalhou por muitos anos e aposentou como Auditor Fiscal.

Era uma pessoa extremamente sistemática, gostava de relógios, que simbolizava uma de suas qualidades: a pontualidade. Na igreja onde assistia sua missa dominical, durante muitos anos, tinha o seu lugar marcado. Era um estudioso da Maçonaria, onde galgou o grau 33 e disso se sentia orgulhoso.

Tinha como obrigação todo o dia dois de novembro, fazer uma visita de cova, no Cemitério Público de Alexandria, ao túmulo de sua mãe, Maria Cavalcante, avó de minha esposa Antonieta e sempre chegava ele às nove horas da manhã. Era o nosso encontro anual, habitual, infalível. Ele e Antonieta rezavam pelos entes queridos ali sepultados. Sentávamos na lápide do túmulo e conversávamos demoradamente sobre sua vida, dos filhos, dos netos e principalmente sobre a sua cidade, Alexandria e sua evolução.

 

Hosmedito foi uma das pessoas da família de Antoniêta que aprendi a querer bem e admirá-lo. Costumo dizer que amigo meu não tem defeito, só qualidades e nunca esqueci o dia em que depois das exéquias de seu pai, foi convidado para participar de uma rápida reunião para encaminhar o que seria a “partilha” dos bens e ele simplesmente disse ao seu querido irmão Francisco, para ouvidos de todos os outros irmãos da segunda família: “Chico, você como sócio de meu pai em seus negócios foi quem construiu tudo o que ele tem e o que você determinar eu aceito”. Era uma pessoa desprovida de interesses aos bens materiais e sua grande preocupação foi em educar os três filhos: Júnior, Gracinha e Lourdinha e mais recentemente os netos e a partilha de seus bens o fez em vida.

Foi sempre uma lembrança permanente em nossa casa através de sua sobrinha Antonieta, que o queria um bem extremado, porque o seu tio, quando criança e adolescente protegia e defendia seu pai. Além do amor, nutria-se por ele admiração, respeito e carinho.

A família perde de sua convivência uma das mais queridas e admiradas referências. Hoje, nas alamedas da saudade, restam as lembranças de Hosmedito, que irão residir eternamente em nossos corações, sem esquecermos jamais aquele encantador sorriso e seu cativante olhar. O céu está em festa.

SOBRE JOSÉ ANTONIO DE ALBUQUERQUE

JOSÉ ANTONIO DE ALBUQUERQUE

Professor e historiador, fundador do jornal Gazeta do Alto Piranhas e diretor da Rádio Alto Piranhas.

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