[JOSÉ ANTONIO DE ALBUQUERQUE] Os frutos de Zilmar

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No cenário seco e árido do sertão de Cajazeiras, entre cactos, juremas e xique-xiques nascia, em 30 de abril de 1937, Maria Pereira, conhecida por Dona Zilmar. Sem dúvida mais uma das fortes Mulheres do Oeste, uma heroína anônima que consagrou a sua vida à família, com obstinação e sacrifícios, que não foram em vão, e as suas forças e energias destinavam-se, em especial, aos filhos.

No Sítio Xique-xique nascia, num ano bom de inverno, uma baraúna, que ao longo do tempo serviu de sombra e abrigo para seus oito filhos, postos para o mundo a partir de seu casamento, em 1956, com Geraldo Joel de Araújo, um cearense que ganhou a apelido de Geraldo Piauí.

Na quietude mística dos crepúsculos contemplava para seus filhos novos horizontes. Horizontes diferentes daqueles vividos sob o sol inclemente do sertão e dos caminhos e das terras para aonde jogava a semente e sugava os alimentos para mesa da família.

Do seu coração a esperança nunca desertou e com o passar do tempo, tendo a noção de que a descoberta dos valores essenciais da vida só era possível através da educação, que seria o patrimônio e a herança que poderia deixar para os filhos, não esmoreceu em momento algum de lutar para que isto acontecesse. Por isto envolveu toda a sua vida nesta caminhada, tendo entre as mãos o terço para orar, a voz para o combate dos contrários e o corpo como escudo para as intempéries.

Nu lugar de uma enxada de três libras pôs nas mãos dos filhos uma caneta; no lugar do lençol para apanhar algodão uma folha de papel; no lugar da foice e da “chibanca” que derruba o mato e arranca o toco a carta de ABC e a tabuada.

Zilmar sempre acreditou na inteligência de seus filhos, era preciso se libertar da ideia de que os braços da prole se faziam necessários para o aumento da produção e encher os quartos e salas da casa de legumes. O que ela queria na realidade era povoar a mente de seus filhos de conhecimentos e saberes.

Fazia-se necessário quebrar esta tradição e impôs ao “pater família” o seu querer e o foi de uma forma tão forte e determinante que veio a prevalecer sobre seus filhos não o nome de família da origem paterna, mas sim o dela: Pereira. Ninguém conhece Josival Araújo, Adjamilton Araújo, Lindismar Araújo, Airton Araújo, Ocidália Araújo, Adailton Araújo ou Jarismar Araújo, mas sim pelo sobrenome de sua mãe: Pereira.

Tive a grata satisfação de ter como companheiro de luta, quando da fundação do jornal Gazeta do Alto Piranhas, o jornalista Josival Pereira, fato há 18 anos considerado como “uma loucura” e ele como primeiro editor jogou luzes e brilho na imprensa escrita de Cajazeiras e o que escrevia repercutia estado afora. Foi através de Josival que fiquei conhecendo a grande e valorosa Zilmar.

A casa de Dona Zilmar era o refúgio predileto de Josival e não conto as vezes que lá o encontrei e me dizia que ia se aconselhar, beber sua sopa (existe coisa melhor no mundo que a sopa da casa de nossa mãe), para pedir a benção e sempre que falava em sua mãe seus olhos brilhavam. Lembro que quando Josival tomou a sábia decisão de migrar, de voar mais alto estive com ela e comentei com tristeza a ida dele para João Pessoa e me respondeu: criamos os filhos para o mundo. Com certeza, naquela ocasião, ela deve ter concluído que a ida dele para a capital do estado estava sendo muito mais fácil do que sua vinda do Xique-xique para Cajazeiras.

Dona Zilmar lembra muito a minha mãe que também, com sua coragem e visão, bem antes do que fez ela, colocou os filhos debaixo das asas e trouxe todos para estudar em Cajazeiras. Minha mãe a exemplo da mãe dos Pereiras tinha dois fundamentos essencialmente cristãos, que nortearam as suas vidas: um terço nas mãos para rezar pelos filhos e uma mesa para agregá-los e talvez, Dona Zilmar costumava dizer como minha mãe na hora da partilha: “desde que filhos tive, nunca mais barriga enchi”. Eu costumo dizer que a família que reza e come na mesma mesa sempre permanecerá unida.

Assim como minha mãe continua me fazendo uma enorme falta, Josival na sua fala, ao se despedir de sua mãe, já reclamava da falta que ela ia fazer na sua vida e de seus irmãos, e foi muito feliz em dizer do legado que deixou para a família: a educação.

O Xique-xique ficou bem mais pobre com a ida de Dona Zilmar para as alamedas da saudade, mas deixa de presente para Cajazeiras frutos de excelentes qualidades.

ELIANE BANDEIRA
1 comentário
  1. Tatiana Pereira Cunha Diz

    Boa noite senhor José Antonio.
    Eu Tatiana Pereira, filha de Ocidália Pereira e neta de Zlimar Pereira, vim aqui em nome de todos os netos, agradecer suas lindas e emocionantes palavras. Sem dúvida foi a mais linda homenagem feita a minha querida vozinha, sem querer desmerecer as demais.
    Assim como os meus tios, sou comunicadora inata e de formação, então, humildemente vim deixar o meu depoimento quanto ao legado que dona Zlimar deixou, não só para os filhos, mas também para os seus 17 netos. Sempre mantendo a convivência familiar, com bons princípios de educação, usando em seu cotidiano formas educadas de lidar um com o outro, com gestos e palavras que traduzem educação, conceitos estes que levaremos pro resto de nossas vidas. Além de toda educação, nossa vozinha, também transferiu aos netos conhecimentos e possibilidades para que cada um de nós pudéssemos construir nossa própria autonomia, e com isso, ir em busca de uma profissão. E o resultado de todo esse legado? Lindos netos, educados, guerreiros e de bons corações.
    Hoje estamos na terceira geração, o legado de vozinha será passado adiante como a mais bela herança deixada por ela, nossa eterna matriarca.

    Obrigada senhor José Antonio.
    Abraços carinhosos de todos os netos da família Pereira.

    Brasília, 8 de fevereiro de 2016.

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