Cajazeiras-PB, 20/10/2017

Ideia simples e criatividade transformam vida de sertanejos

polpa

A natureza aliada a uma visão empreendedora deu início a um negócio de sucesso no Sertão da Paraíba. O que era apenas um complemento da renda se transformou no sustento de uma família com cinco pessoas. Foi na cidade de Brejo dos Santos, embaixo de um pé de cajarana, árvore comum na região, que começou a história de seu Divan de Oliveira e dona Rosália Miranda. O casal tem três filhos, e não conseguiam consumir todo o fruto que brotava da árvore. Como em tempos de seca desperdiçar é verbo proibido no Nordeste, nasceu daí uma proposta, um negócio: a fabricação de polpa de fruta.

“O pessoal que andava na casa da gente tomava o suco da fruta e gostava. As pessoas iam pedindo mais, e a gente ia fazendo”, lembra dona Rosália. Segundo ela, as frutas eram tantas, que, para não estragar, começou a fazer a polpa e guardar. “Passava a cajarana no liquidificador, coava em uma peneirinha, enchia os saquinhos e colocava no congelador”.

Desse dia em diante, não parou mais. “O pessoal começou a chegar na casa da gente procurando, e começamos a vender”. As vendas se espalharam pela vizinhança. A fama da polpa de cajarana de dona Rosália e seu Divan aumentou e exigia uma produção cada vez maior. O liquidificador de casa e o ensacador artesanal, feito de cano de PVC pelo chefe da família, já não davam mais para serem utilizados.

Crédito

Dona Rosália lembra que precisou de dinheiro para comprar o maquinário adequado, pois o que ganhou com as primeiras vendas da polpa de cajarana foi insuficiente para expandir o negócio. “Foi aí que apareceu o empréstimo do Banco do Nordeste. A gente foi fazendo e comprando um ‘freezerzinho’, depois compramos um liquidificador industrial, uma máquina de ensacar e, graças a Deus, estamos vendendo muito”, comemorou.

Com um maquinário mais potente, o casal passou a fabricar polpa de outras frutas, como manga, abacaxi, goiaba, tamarindo e caju. Com a diversidade de sabores, as encomendas ultrapassaram os limites do sítio onde moram, passaram pelo município de Brejo do Cruz e chegaram até as cidades vizinhas, como Bom Sucesso, Catolé do Rocha e Jericó.

Parte das encomendas de Bom Sucesso vão para a lanchonete de seu João de Deus Araújo. “Eu compro 30 quilos de polpa por mês e vendo uma média de 20 litros de suco por dia. O que mais pedem aqui é suco de polpa, porque fruta nessa época é mais difícil”, contou o comerciante.

Além de abastecerem a lanchonete de seu João de Deus, seu Divan e dona Rosália se tornaram fornecedores do programa de alimentação escolar da região. “Antes disso, o suco da merenda vinha de fora, mas, através da ideia que a gente teve, agora é daqui”, disse dona Rosália. Ela não esperava que a ideia que teve fosse se transformar em um grande negócio. “Começar a fabricar para tomar em casa e, de repente, gerar um alimento para as escolas é uma coisa que a gente não esperava que fosse acontecer”.

Empreendedores em potencial

O potencial empreendedor de dona Rosália e de seu Divan foi rapidamente percebido pela coordenadora do programa de microcrédito rural Agroamigo do município de Catolé do Rocha, Rafaella Suassuna. Segundo ela, o casal é um exemplo de organização, planejamento e visão de futuro. “Tenho muita satisfação e felicidade, não por ter detectado clientes como estes, mas por eles terem compartilhado com outras pessoas a experiência que tiveram, que, de um pouco, pode-se fazer muito”.

O desejo de fazer o negócio crescer ainda mais alimenta a fé do casal que não desanima nem mesmo diante dos problemas enfrentados com a falta de chuva no Sertão paraibano. “Hoje, nós não estamos em melhor situação, porque a seca castigou a gente demais. A matéria prima está difícil, mas, graças a Deus, nós estamos pelejando”, afirma seu Divan. Ele conta que, ainda assim, conseguiu ter uma boa produção. “Hoje, que está difícil a fruta, dá para vender uma faixa de 500 quilos de polpa”, calcula. O rendimento chega a ser de até R$ 4 mil mensais.

Revenda

A qualidade da polpa produzida por seu Divan e dona Rosália despertou o interesse dos comerciantes de Brejo dos Santos. Eles contam que foram procurados por várias pessoas que querem revender o produto fabricado por eles. “Já me procuraram para eu fornecer para o comércio, mas, no momento, não posso, porque não adianta pegar a encomenda e não ter o produto, ou fornecer uma vez e faltar na outra”, ponderou.

A recusa das encomendas é motivada por razões que vão além da capacidade de produção de seu Divan. “Por conta da seca, nós aqui, no recanto da Paraíba, estamos indo pegar fruta no Ceará, em Aracati, e está tudo caro demais”, justifica.

Mesmo assim, não desanima e espera ansioso que a chuva venha, para que possa investir ainda mais no seu negócio. “Esperamos que Deus ajude, venha um bom ano, para a gente poder comprar uma máquina maior. A minha é pequena ainda para a demanda. Se chover, sei que a demanda vai crescer bastante”, avalia o empreendedor.

Como seu Divan percebeu que o volume de encomendas crescerá, alimenta um sonho. “Meu sonho é de fazer um prediozinho ideal e construir uma câmara fria, porque o cajá e a cajarana só dão na época do inverno. Não têm como a gente guardar três, quatro mil quilos. Esse é meu sonho, para eu poder me firmar”. Para ser firmar, se formalizar e expandir o negócio, destaca dona Rosália. “ A gente vai se qualificar cada vez mais para quando aparecer a oportunidade, abrimos uma empresa, pois com nota fiscal as vendas vão aumentar”, avalia.

Para o professor de estratégia empresarial da faculdade de Coimbra, em Portugal, Fernando Carvalho, não há uma grande empresa que não tenha começado pequena. Segundo ele, os micro e pequenos empreendedores geram emprego e renda e ainda encorajam as pessoas a abrirem seus próprios negócios. “Esses efeitos acumulados são excelentes numa perspectiva de desenvolvimento local, depois, numa perspectiva do desenvolvimento regional e cada vez mais uma perspectiva nacional e até global”, enfatizou Fernando Carvalho.

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