Há 35 anos, agentes da PF monitoraram Lula em visita a Cajazeiras


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Cajazeiras, sábado, 09 de agosto de 1980. O dia estava ensolarado e milhares de pessoas frequentavam a feira livre a cidade paraibana, que fica quase na divisa com o Estado do Ceará. Naquele dia, Cajazeiras recebeu a visita de uma liderança sindical emergente que, 22 anos mais tarde, seria Presidente da República: Luiz Inácio Lula da Silva.

Acompanhado do integrante do Comitê Central do PCR (Partido Comunista Revolucionário), Wanderly Farias (hoje jornalista), e do então suplente de senador pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro, partido de oposição que foi sucedido pelo PMDB), João Bosco Braga Barreto (já falecido), entre outras lideranças que articulavam a criação do PT na Paraíba, Lula participou de uma manifestação pública na feira de Cajazeiras.

Tudo foi acompanhado por agentes infiltrados da Polícia Federal. O Presidente da República era o general João Batista de Figueiredo, o governador da Paraíba era Tarcísio de Miranda Burity e Brasil estava na efervescência do fim do regime militar, o que somente aconteceria cinco anos mais tarde, com a eleição de Tancredo Neves para presidente, numa eleição indireta realizada no Congresso Nacional.

Mesmo assim, agentes do Serviço Nacional de Informação (SNI), do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e da Polícia Federal estavam infiltrados em todos os movimentos sociais. Onde quer que ocorresse uma manifestação de protestou- estudantil ou sindical-, os agentes de segurança estavam lá, fotografando, gravando, observando, anotando.

Eles monitoravam os passos de quem quer que fosse suspeito de subversão. Subversiva era qualquer pessoa que se opusesse ou fizesse qualquer crítica ao regime. E os subversivos estavam sujeitos às penalidades impostas pelo Ato Institucional Nº 5 (AI-). Poderiam sofrer de intimidação a tortura, prisão e assassinato.

Nesta reportagem o Correio revela, com base em documento fornecido pela Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória da Paraíba, o teor de um relatório confidencial elaborado pelo Serviço de Informação do Departamento de Polícia Federal no Estado, em relação à visita do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva às cidades de Cajazeiras, Souza, Patos, Bayeux e João Pessoa nos dias 9 e 10 de agosto de 1980.

O relatório é datado de 13 de agosto de 1980. Foi enviado ao Centro de Informação da PF em Brasília, ao SNI, ao 1º Grupamento de Engenharia e Construção em João Pessoa e ao Centro de Informações da Secretaria de Segurança Pública da Paraíba. Uma observação escrita em carimbo afirma: “Qualquer pessoa que tomar conhecimento deste assunto fica responsável pelo seu sigilo”.

Comício em Cajazeiras

O relatório confidencial sobre Lula diz que ele promoveu comício em praça pública, em Cajazeiras, com cerca de 1.000 pessoas “a quem conclamou, logo de início, à reação contra ações policiais que procuram reprimir protestos dos trabalhadores”.

O relatório afirma que Lula citou como exemplo de reação a passeata realizada no dia 1º de maio de 1980, em São Paulo. O então operário, segundo o relatório, teria dito no comício que, em virtude da insistência dos operários, os órgãos repressivos foram obrigados a recuar e permitir a concentração em São Paulo.

“Frisou (Lula) ainda que, em hipótese alguma, o povo deve temer a ação policial, vez que inexistem cadeias para todos e anunciou que, no próximo ano (1981), os metalúrgicos do ABC (região paulista formada pelas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Carlos) farão greve de 82 dias, a fim de provarem que o Governo não tem forças e, consequentemente, cederá às exigências que lhe serão impostas”, afirma o relatório sigiloso da PF sobre Lula.

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