Cajazeiras-PB, 23/10/2017

Guerra em Guararapes

O mundo do cangaço é tão vasto quanto a bibliografia em torno dele. A cada ano aparecem novos estudos, ensaios, monografias, dissertações e teses acadêmicas ou simples registro de memória. Sem contar obras de ficção e milhares de folhetos de cordel que circulam desde sempre. E mais, realidade e fantasia se misturam no cinema, no teatro, na música, em gravuras. Nesse mar diversificado de manifestações científicas e artísticas é difícil separar o profundo do superficial, o duradouro do ocasional. Na vastidão do tema banditismo um escritor merece ser destaque:

Frederico Pernambucano de Mello.

Referência maior nesse campo. Não é gratuito atribuir-lhe essa condição. Sua obra se impõe por si mesma, graças à fundamentação, à seriedade das investigações, à variedade de métodos usados para extrair das entranhas do mundo concreto o que é essencial. E interpretar com originalidade e segurança. Muitos fatores contribuíram para isso. Com formação universitária em história e direito, Frederico encontrou na Fundação Joaquim Nabuco o ambiente propício para desenvolver suas aptidões de pesquisador, tendo o privilégio de conviver, muito jovem ainda, com Gilberto Freyre e dele receber influência fundamental.

Munido de conhecimento teórico, Frederico embrenhou-se nos sertões, conversou com antigos cangaceiros, militares de volantes, entrevistou vítimas brutalizadas por uns e outros, coronéis e coiteiros. Escutou versões e anotou reações de quem viveu diretamente o fenômeno do cangaço em sua fase final. Visitou lugares onde se deram fortes embates. Fred também remexeu papéis velhos, documentos, hemerotecas, fotos e filmes. Tudo esmiuçou com prazer intelectual, a caminho da firme especialização num campo do conhecimento da realidade nordestina, aliás, minado por apaixonados pregoeiros. Muitos estudos de Frederico Pernambucano de Mello transformados em livros – Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste brasileiro; Quem foi Lampião; Estrelas do couro: a estética do cangaço; Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros – estão aí para confirmar a assertiva.

Frederico não é “apenas” um especialista no cangaço.

Vai muito além. Por isso, seu editor Raimundo Gadelha “descobriu” a necessidade de publicar parte de sua produção intelectual não relacionada com seu tema central. E os leitores, garantiu o editor, adorariam conhecer a face meio escondida do escritor pernambucano. Assim nasceu Guerra em Guararapes e outros estudos, (Escrituras Editora, 2017), que tem como carro-chefe um ensaio histórico de título revelador, Guararapes: batalhas que deram endereço ao Brasil. O livro abriga outros textos sisudos, ao lado de artigos leves, a maioria iluminando a realidade nordestina, nossa história, o misticismo religioso de Canudos. Mas não só. Há pequenas incursões críticas a obras de acadêmicos como Michel Foucault, Modris Eksteins, Carlo Ginzburg, Oswald Spengler, Michel de Certeau.

Frederico Pernambucano de Mello não abandonou, todavia, seus fiéis leitores. Reservou em seu recente livro espaço suficiente para satisfazê-los com, entre outros escritos, Maria Bonita: a mulher e o nome de guerra, A lei de Corisco, O eunuco do Morro Redondo: um caso de castração real no cangaço, este narrado com base em jornais da década de 1930 e em entrevista, realizada em 1987, com a própria vítima.

Agora é deitar na rede e ler.

Francisco Sales Cartaxo Rolim é autor do livro, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

SOBRE FRASSALES CARTAXO

FRASSALES CARTAXO
Francisco Sales Cartaxo Rolim é autor do livro, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

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