Cajazeiras-PB, 24/11/2017
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Gratidão extrema

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A reação era rápida, expedita. A qualquer barulho ou toque, o guarda municipal Tibúrcio punha-se de prontidão. Revólver, peixeira, cassetete ou qualquer coisa na mão, ficava em posição de combate. De início, foi uma postura forçada, inventada para posar de cabra macho, bravo, disposto, como rezava a cartilha dos papas serenos do interior. Depois, com a sucessão de repetições, aquilo virou um reflexo condicionado.

Era tão exagerada a reação, que virou divertimento público. Por onde passava o velho Tibúrcio a súcia estava a gritar pelo seu nome, cutuca-lo, e fazer tudo quanto fosse estímulo sonoro ou físico para provocar seus rompantes.

Para poupa-lo do escárnio público, Chico Rolim, prefeito cajazeirense da época, colocou-o para fazer a segurança de sua residência. Nem em sonhos Tibúrcio pedira tanto. Sombra fria, água fresca, comida gostosa e a tranqüilidade de que fora privado desde que inventara aquela besteira que já não conseguia dominar.

Passou a ser um apêndice na família, um agregado, outros diziam que fazia parte da mobília, por estar sempre ali, estático, de prontidão. Ele, por sua vez, mostrava-se numa felicidade que só podia ser espelhada quando estava diante do alcaide. Seus olhos brilhavam, sua face ficava rosada, era mesmo uma transformação.

Aos mais chegados e não tão chegados assim, só tinha palavras superlativas para elogiar o prefeito, o seu objeto de gratidão que, de tão grande, se tornou proverbial.

A fidelidade e a gratidão eram tão grandes que se inventou na cidade uma história para se dar idéia do tamanho delas. Contava-se que morreu o pai de Tibúrcio. Ele, como sempre desprevenido, pediu a Chico Rolim ajuda para fazer o sepultamento de seu velho genitor.

O prefeito financiou todas as despesas com funerária, mortalha, flores, anúncios nas estações de rádio e ainda mandou vários carros para transportar os familiares ao cortejo fúnebre.

Solenidade de primeira, enterro de rico. Tibúrcio, não fora pela perda do pai, parecia satisfeito, orgulhoso, com aquela pompa. Quando o féretro ia sair para o cemitério, notou que o defunto esboçava o que poderia ser um movimento. Com toda a rapidez que o reflexo condicionado permitiu, incontinênti, se pôs sentado sobre a porta celeremente fechada do caixão, antes que o corpo realmente se mexesse. “Não era agora, depois de morto, que seu pai iria fazer uma desfeita daquelas com Seu Chico”, pensou.

VALIOMA ROLIM

SOBRE Christiano Moura

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