Cajazeiras-PB, 19/11/2017
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[FRASSALES CARTAXO] O revólver vai

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Quando eu era adolescente, escutei de um amigo uma história real, tendo sua própria mãe como protagonista. Vale recordá-la pelo que encerra de extraordinária lição de vida, aplicável a diferentes situações. Narro o caso. Viúva de meia idade guardava com desvelo suas joias numa caixa forrada de veludo. Todas ou quase todas foram presenteadas pelo falecido esposo, desde a época do namoro, passando pelo noivado, um costume meio em desuso nos dias de hoje, porém, observado religiosamente em outros tempos. Ela nunca usava as joias, aliás, pouco as retirava da caixa, retraída ao extremo desde a morte de seu amado. Na verdade, ela até considerava uma violação à memória dele que, em vida, sempre tinha um adjetivo a coroá-la quando ela usava como enfeite alguns daqueles preciosos adornos para realçar sua beleza. Só abria uma exceção: as duas alianças juntas no mesmo dedo.

Entre as joias havia uma pulseira cheia de pequenas peças que, ao balanço do braço, tilintavam de maneira graciosa. Graciosa e suave. Lá estavam um coração, uma tesourinha, um martelo, um revólver, uma flor, um pássaro de asas abertas. Minúsculas peças. Valiosas. Tudo em ouro puro. Certo dia, uma amiga lhe pediu o bracelete para exibir-se numa festa de casamento. Sem ouvir recomendação, levou o enfeite e prometeu devolvê-lo sem demora. Não precisa pressa, eu não uso mesmo, disse a viúva, deixando a amiga mais à vontade ainda.

Dias depois, ela devolve a peça, acompanhada de bilhete em que dá conta da cerimônia de núpcias, da beleza da noiva, da elegância do noivo, da presença de muita gente conhecida, enfim, do sucesso da festa. No final do bilhete, agradece a gentileza do empréstimo da pulseira, não sem antes escrever, vaidosa, que foi um dos fatores de seu brilho naqueles momentos de convívio social. E encerra o bilhete com este

– P S: O revólver vai.

A dona da pulseira só então foi conferir sua joia. Todos os pequenos adornos lá estavam pendurados, menos o revólver. A viúva ficou intrigada. Por que sua amiga chamou a atenção para o detalhe? Se não o fizesse, talvez, ela mesma nem notasse a ausência do revólver. E pôs-se a imaginar a causa de pessoas sérias se traírem de modo tão primário. Seria dor na consciência? Que razões levaria alguém a querer esconder algo no mesmo passo em que deixa rabo de palha? Insondável contradição. Não teria sido mais apropriado, no caso da pulseira, revelar com clareza a perda do revólver? A viúva não atinava para esse procedimento da amiga, amizade de muitos anos, fato que deveria deixá-la a cavaleiro para explicar com clareza a perda de tão insignificante detalhe. Jamais conseguiu decifrar esse enigma.

Vez por outra, lembro essa história, absolutamente verdadeira. Agora mesmo, quando vejo tantos escândalos causados pelo surrupiar de dinheiros públicos no reino da propina, e escuto longas explicações para “legalizar” condutas ilícitas por parte de deputados, senadores, políticos, empreiteiros, servidores públicos, doleiros, executivos dos dois lados do balcão de negócios, enfim, diante dos malabarismos verbais dessa gente, mais eu valorizo a história da pulseira da viúva que ouvi na adolescência. E chego a gargalhar dos circunlóquios que terminam em contradições e revelam detalhes comprometedores, como na história de “o revólver vai”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SOBRE FRASSALES CARTAXO

FRASSALES CARTAXO

Francisco Sales Cartaxo Rolim é autor do livro, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

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