Caríssimo Zé. Antes de qualquer prosa, um desabafo. Depois daquela nossa primeira conversa fui ralhada por alguns que consideraram meu linguajar inadequado ao peso de sua função. Mas, tudo bem, relevei em nome da paixão desmedida que muitos nutrem por seus representantes políticos, não permitindo qualquer opinião que ultrapasse as soleiras da bajulação.

Reprimendas a parte e, aproveitando o clima da Semana Santa, vamos regar nossa prosa com o velho e indefectível cafezinho. E, iniciando nossa conversa vou logo dando uns pitacos sobre o carnaval. Sei que teve uma consulta pela Internet sobre o local de realização da festa e que, este procedimento daria o aval popular à decisão. Mas, cá com meus botões fiquei a matutar: será que todos realmente opinaram? Será que todos têm acesso a estas estrovengas eletrônicas? E, Zé, vamos ser sinceros! O carnaval na Rua Juvêncio Carneiro é um estrupício para muitos, sobretudo quando consideramos ser esta uma das principais ruas do centro da cidade, onde se concentra agências bancárias, sede dos Correios e, cuja interdição por vários dias, traz sérios transtornos a muita gente. Gente que gosta ou não da festa momesca.

E ainda sobre o Carnaval. Zé, você conseguiu passar mais que cinco minutos na chamada praça dos blocos? Gente, que mulesta dos cachorros era aquilo? Uma verdadeira babel de sons estridentes, de paredões gigantes vomitando músicas de péssimo gosto melódico, letras homofóbicas, racistas, machistas, fascistas e todos os istas que desqualificam esse lixo que a mídia burra costuma chamar de música.

Por razões pessoais tive que passar o carnaval em Cajazeiras e, como moro próxima a este local que, de forma grotesca, se ousa chamar de praça dos blocos, contaminei, de forma quase que irreversível, “minhas ouças” e, claro, meu restinho de discernimento melódico com estas referências musicais que lembravam mais os horrendos e intragáveis inferninhos que pululam em festas de péssimo gosto, que a expressão do nosso velho e folgazão carnaval.

E, para fechar o rumo dessa prosa, caríssimo Zé, teve uma sala de estar confortavelmente instalada em pleno corredor da folia. Ou seja, alguém, certamente com as bênçãos de anuências do poder público, decide privatizar um trecho da festa que vinha sendo bancada, organizada, coordenado por este mesmo poder público e, seguindo os preceitos da nossa velha e maltratada democracia, teria que assegurar a todos os foliões os mesmos direitos, espaços, acessos. Mas não é que este camarada decide instalar uma sala de estar na parte mais privilegiada do espaço central da festa carnavalesca. Espaço cujo acesso somente era autorizado por ele aos seus seguidores, discípulos ou qualquer coisa que defina o que, na tradição popular, se batiza, sabiamente, por “xeleleú”.

Ah!  Zé, mas em atenção a Semana Santa, vamos parando por aqui.  Vá relevando os tortos rumos dessa prosa, mas ela tava engasgada e carecia ser expelida se não como conseguiria degustar a frigideira de bacalhau na sexta-feira santa?

E quanto aos biscoitos de nata, fica pra próxima.

Ainda não decorei a receita!

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