Da rede da vovó aos braços de Foucault

A COLUNA DE FRANCISCO SALES CARTAXO ROLIM

COISAS DE CAJAZEIRAS
GUERHANSBERGER TAYLLOR É AUTOR DO LIVRO / FOTO: REPRODUÇÃO DA INTERNET

Na pequena cidade do Lastro, sertão da Paraíba, enquanto balançava o neto na rede, a avó contava a história de um tal de Chico Pereira.

Quem foi Chico Pereira, vó?

Foi um cangaceiro, meu filho. Mas que não fazia mal a ninguém. Foi um jovem injustiçado. Mataram o pai dele, e ele teve que se vingar.

No vaivém da rede da vovó, o pequeno Taylin ouviu falar do livro Vingança, não: depoimento sobre Chico Pereira e cangaceiros do Nordeste, de Francisco Pereira Nóbrega. Aquela cena prosaica, adormecida na memória infante de Guerhansberger Tayllow Augusto Sarmento, ressurgiu com força em Cajazeiras, quando ele cursava História no campus da UFCG. Ali, o neto da professora Luiza entrou nas redes do saber acadêmico, descobriu o diversificado mundo do poder e, também, aprendeu que tudo precisa ser problematizado.

Taylin caiu nos laços de Michel Foucault.

E em sua companhia lá se foi embrenhar-se no matagal do cangaço, espelhado em livros, cordéis, revistas, jornais, sites e outras fontes de pesquisa para produzir um TCC que fez brilhar sua Licenciatura Plena em História.  O estudo foi transformado no livro Nas redes das memórias: as múltiplas faces do cangaceiro Chico Pereira. (Natal: Sebo Vermelho, 2017).

Fez muito bem em publicar.

Francisco Pereira Dantas – paraibano nascido em Nazaré, município de Sousa, hoje cidade de Nazarezinho -, entrou no cangaço muito jovem, após a morte do pai em 1922, num entrevero armado. O pai era proprietário rural e comerciante, com envolvimento na turbulenta política sousense. Decepcionado com a impunidade legal do único criminoso que restou vivo daquela briga, Chico Pereira o matou. Por isso, caiu na clandestinidade e formou um pequeno grupo de cangaceiros. Sua maior afoiteza foi chefiar o ataque a Sousa, em 1924, ao lado de dois irmãos de Lampião. Dois anos depois, preso sem resistência em Cajazeiras, Chico Pereira foi levado a Pombal, Patos e Santa Luzia, e entregue à polícia do Rio Grande do Norte. Ali o mataram num simulacro de acidente rodoviário, em 28 de outubro de 1928.

O livro trata só disso?

Que nada. Muito mais do que isso. Foca a construção da versão do filho, exposta no livro Vingança, não. Segundo Augusto Sarmento, padre Pereira acabou reconstituindo, por meio dos seus interesses, uma memória para Chico Pereira. Essa memória foi trabalhada através de um ensinamento do cristianismo: o ato de perdoar. Desse modo, o filho reescreveu a história de um passado marcado por crimes do pai, tendo como ponto condutor e sedutor da sua escrita a mensagem do perdão.

Em menos de 140 páginas, o livro – dividido em quatro capítulos, além da introdução e de considerações finais -, merece estas notas, não só pelo valor acadêmico, mas sobretudo pelo emblemático interesse das universidades nordestinas, em particular, dos campi localizados no interior, em tratar de temas próximos de nossa realidade.

Alvíssaras.

O autor é mestrando na UFRN e continua na trilha do cangaço. Arretado. Decerto avançará, agora, no tema coronelismo como sistema político, para desvendar com segurança as intrincadas relações do jogo político com o banditismo. Impossível fugir da forte vinculação dos grupos cangaceiros com os arranjos do poder local e regional, peculiares à época dos coronéis. Aliás, já objeto de estudo, entre muitos, por Victor Nunes Leal, Jeanne B. de Castro, Edgard Carone, Raymundo Faoro, José Murilo de Carvalho.

P S – Tratei o autor como Augusto Sarmento em respeito a Ariano Suassuna, filho de personagem chave na morte de Chico Pereira.

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