[CRISTINA MOURA] Vitrine


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Estes são alguns elementos sedutores da feira de Campina Grande, Paraíba. Os bolos ficam numa vitrine instalada num simples quiosque de zinco e madeira. O lugar também vende pastel, caldo de cana e outras atrações. Na vitrine, viajei. Os bolos estavam ali me olhando. O primeiro à esquerda, na prateleira de cima, é de leite. Bolo de leite ou baêta. Não sei a origem da palavra baêta, mas já vi como sobrenome. Tem um aspecto mais português do que italiano. No sertão, o bolo chamado de leite consiste em repetir a receita básica de bolo fofo, com farinha de trigo, açúcar, manteiga ou margarina, fermento em pó, ovos e leite. O diferencial é o aumento na cota de leite. Se um fofo normal pede duas xícaras de leite, o bolo de leite ou baêta pedirá umas quatro ou cinco. Nunca fica esfarelado. É encorpado, grosso. O revestimento é uma casca marrom dourada e um pouco crocante. Não posso mentir, dizendo que não tem muita gordura. Tem, sim, bastante.

Fazia um bom tempo que eu não escrevia crônicas, muito menos sobre comida. Agora estou na fase de escrever sobre comida. Vi esta foto, tirada em janeiro deste ano, e imaginei as receitas. O bolo vizinho ao baêta é de chocolate. Junto com a receita básica, há uma quantidade de chocolate em pó. O recheio é variável, mas feito com chocolate e leite condensado. Há quem acrescente creme de leite. Dependendo do bolo desse tipo, caso seja bem doce, basta uma colher para me satisfazer. Não sou chocólatra.

Vamos à vitrine. Abaixo, à direita, com essa crosta queimadinha por passar mais tempo no forno, é o de milho, meu preferido dentre milhões. Bolos e mais bolos de milho, receitas e mais receitas são apreciadas por mim. Quando conheço a cozinheira ou a boleira, discuto a teoria e a prática. Se possível, passo vários minutos aprendendo a metodologia. O milho é algo milenarmente associado ao meu imaginário nordestino. O problema é que, caso exagerado no meu paladar, provoca um inchaço no estômago. Bolo de milho verde, molhadinho, com o gosto do milho verde mesmo, é uma realização. Broa de milho, mais enxuta, com toques de erva-doce, é uma satisfação. Café ou café com leite para acompanhar.

Bolo de milho feito com rapadura e pouquíssimo leite, pitadas de cravo e canela, é uma receita da minha família, do lado paterno. Talvez tenha vindo da bisavó, Isabel Correia. Depois, continuada por minha avó, Maria Félix. A receita é perpetuada atualmente pela filha, Tia Netinha. Agora estou tentando ser a quarta geração. Fiz esse bolo no mês de junho, o mês consagrado a comidas de milho. Ficou um pouco seco, mas não sobrou um só farelo na festa junina do sítio. Faltou, talvez, segundo minha tia, jogar na bacia o leite ainda morno, em cima do farelo de milho pré-cozido. O farelo é aquele de fazer cuzcuz. O farelo é colocado, junto com a rapadura derretida, para descansar, por isso um gosto diferente. Esse esquema de descansar, esperar ou reservar é fundamental em certas receitas. Eu tinha preconceito com isso, até que aprendi o mistério.

Mas, vamos voltar à foto. O outro bolo que aparece na vitrine é de coco, coberto com um creme de açúcar e limão e umas raspas de chocolate. Bolo de coco, assim de verdade, especificamente, pra valer, ainda não fiz. Até senti vontade, dia desses, mas só se fosse com coco verde, ralado, natural. Não quero aquele do pacote, do supermercado. Um dia comi um bolo de coco verde na casa de Tia Maria, tia da minha mãe. Ela fazia umas iguarias inesquecíveis. Agora deve estar bordando seus panos coloridos em algum lugar do além. Na casa dela, a geladeira branca e azul, arredondada nas pontas, tinha uma alça longa de metal vazado para abrir; em cima, um pinguim tocando pandeiro. Era difícil não olhar aquele monumento na cozinha. Que saudade. Na avaliação de Tia Maria Lima, frango, por exemplo, tinha que ser comido com as mãos, os ossos bem roídos, sem cerimônia ou qualquer regra de etiqueta e frescura. Aliás, frango é um prato que preciso empreender mais. Dia desses, troquei umas receitas com umas amigas: alecrim, azeite, molho shoyu e outras coisas diversificadas para saborear a ave. Hoje, porém, é dia de bolo.

PUBLICADO NO BLOG palavrasecores.blogspot.com.br

CRISTINA MOURA

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