Cajazeiras-PB, 12/12/2017
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Conheça a rotina difícil do preparador de corpos para velórios

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Ele faz milagres em quem perdeu a vida horas antes. Os batimentos cardíacos não voltam, mas José Arlindo Névoa, de 57 anos, evita que a última impressão seja a que fique sobre o ente falecido. Ele trabalha como tanatopraxista. É responsável por deixar o falecido com a melhor aparência possível para a última despedida entre os vivos.

“Para você ter uma ideia, os tanatopraxistas dizem que, quando o rosto estiver mais de 30% desfacelado, é impossível fazer a recuperação. Eu já fiz com mais de 60%”, conta. Vítimas de acidentes são os casos mais complicados. Arlindo chega a reconstruir praticamente por completo um rosto para trazer o mínimo de conforto possível a quem o vê pela última vez.

O trabalho parece, mas não tem nada de macabro, e Arlindo fez do assunto delicado uma carreira para toda a vida. O paulista trabalha no ramo há 40 anos e mora no Ceará há 12. O procedimento é quase cirúrgico. Arruma cabelo, corrige a coloração da pele, faz maquiagem, lixa as unhas, disfarça machucados e até reconstrói rostos. Faz todo o possível para que o caixão não seja lacrado. “Uma pessoa que falece de infarto do miocárdio tende a escurecer a pele. O tratamento recupera a fisionomia, traz a pele do falecido para o natural e faz a formalização para conservar o corpo”, exemplifica.

O corpo é levado diretamente do hospital para a Tanatus Clinic, em Fortaleza. “Damos um banho, desinfetamos a parte externa e, depois, começamos a trabalhar na parte interna”, conta. A preparação visa a higienizar o corpo, evitando contaminações ou qualquer tipo de vazamento de líquidos e gases durante o velório, já que o processo busca retardar a decomposição. O processo demora de 1h30 a 2 horas, em caso de morte natural. Para finalizar uma reconstrução facial depois de um acidente, por exemplo, podem ser levadas até 4 horas.

Primeiro, o sangue é substituído por um fluido de conservação (à base de formol), usando uma bomba de injeção. Saem, em média, 6 L de sangue, e entram 6 L de líquido conservante. Em seguida, retiram-se outras substâncias, como fezes e gases, com uma bomba de aspiração. Para finalizar, é feito o fechamento da boca e a maquiagem.

“A maquiagem é só para dar igualdade na cor da pele, usando pó e batom. Só fazemos maquiagem diferente se a família pedir”. Arlindo Névoa, tanatopraxista

A “vocação” para lidar com os mortos veio ainda na infância, por influência do avô, chefe do Instituto Médico Legal de São Paulo. “Eu fui criado dentro desse IML. Tomei gosto pra coisa e acabei ficando até hoje. Desde menino, eu já fazia autópsia, exumava corpo, já acompanhava todo o setor”, relembra.

O profissional precisa fazer curso básico de tanatopraxia, de maquiagem e de reconstrução, para aprimorar o que mais parece ser um dom. De acordo com ele, para uma pessoa começar a atuar no ramo precisa, apenas, estar ligada a uma empresa funerária. Sem ser necessário, portanto, um curso de enfermagem ou medicina, embora mexa com instrumentos relacionados a hospital.

“Não dá para você ensinar como deve fazer os tratamentos, porque cada caso é um caso. Então é ensinado o básico e, em cima daquele básico, a pessoa vai desenvolvendo. Um acidente é completamente diferente de outro. Na hora, você tem que pensar e refletir como vai fazer a reconstrução facial”, explica Arlindo, que também ministra cursos da área.

Por mês, a clínica recebe cerca de 300 corpos; em média são feitos 10 procedimentos por dia. O piso salarial é de apenas R$ 1,5 mil. A equipe é composta por 12 pessoas, mas no momento do tratamento apenas duas ficam na sala: o tanatopraxista e o auxiliar. E haja preparo psicológico. “O preparo é você se acostumar. A gente está trabalhando com ser humano. Embora esteja morto, ele é um ser humano como a gente, viveu como a gente. Não existe motivo para ter medo. Sempre peço para os meus funcionários nunca perderem o respeito e nunca esquecerem que aquela pessoa é pai, mãe ou filho de alguém”, ensina.

Valores

Os valores do processo variam de acordo com o tempo disponibilizado para que o corpo seja velado, e não com o grau de dificuldade do procedimento. O preço é tabelado. O tratamento para um corpo que deve ser velado em até 40 horas custa em torno de R$ 600. O procedimento para um corpo que terá de ir para fora do estado, necessitando de 72 horas de conservação, custa R$ 800. Um que precise ser levado para outro país custa R$ 1,4 mil.

Arlindo, que vive da tanatopraxia, apesar de acostumado com cenas tristes, não gosta de ver acidentes nas ruas da cidade. Sofre e tenta reverter a situação. “É totalmente diferente o Arlindo dentro de uma sala, estando com um corpo, do Arlindo encarando um acidente. Pareço outra pessoa. O meu trabalho não me tornou uma pessoa insensível”. Tal sensibilidade o faz ter como maior retorno não o salário recebido, mas a gratidão de quem reconhece o trabalho. As famílias agradecem. A comparação do estado em que alguns corpos chegam com o resultado de quando são entregues para os entes queridos é de se admirar. “O meu principal objetivo é deixar o caixão no velório com a tampa aberta. Fazer com que esse corpo seja velado com dignidade”.

Mesmo lidando com ela todos os dias, Arlindo confessa ter medo da morte. “Da morte dos outros eu não tenho medo. A partir do momento que você passa a ser pai, a responsabilidade se inverte. Não é: ‘eu quero viver’; mas sim: ‘eu quero viver para dar condições para o meu filho’. A minha preocupação é dar um futuro para a minha família. Mas na hora que a morte chegar, não vai ter jeito”, conclui. E que haja mãos à altura das de Arlindo para trazer aos entes queridos o mesmo conforto e paz que ele leva, diariamente, a tantas outras famílias.

TRIBUNA DO CEARÁ

SOBRE Christiano Moura

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