Cajazeiras-PB, 24/10/2017

Cajazeirense muda história de time de basquete de escola municipal da PB

Imagine a cena. Você é pai ou mãe de um atleta de basquete masculino. O time de seu filho perde a final de um torneio estadual que classifica para o principal campeonato escolar do Brasil. O time campeão, contudo, desiste da competição, alegando falta de verba para viajar de Caiçara, no interior da Paraíba, para Curitiba, na capital do Paraná. O que você faz? Comemora a classificação tardia? Lamenta a desistência do time campeão, mas imediatamente vai comprar a passagem de seu filho? Ou mobiliza pessoas de todo o Brasil para garantir que aquele time que realmente merece a vaga viaje para a competição?

Pois os pais do time do Motiva escolheram a terceira opção. Uma improvável terceira opção que está envolvendo desportistas de todo o país e que já arrecadou mais de quatro mil reais. A saber, o Motiva é um dos colégios particulares mais tradicionais de João Pessoa, a capital da Paraíba, e que tem uma das mensalidades mais caras do Estado.

Tudo começou na final dos Jogos Escolares da Paraíba na categoria 12 a 14 anos, competição que dá vaga aos Jogos Escolares da Juventude. A final foi realizada em João Pessoa entre a Escola Municipal João Alves, de Caiçara, cujo time reúne atletas pobres de um projeto social da cidade; e o Colégio Motiva, de João Pessoa. O time de Caiçara venceu por 31 a 19 e conquistou a vaga. Mas, aí, começava o drama.

De início, o Governo da Paraíba tinha prometido financiar as passagens de avião de todas as escolas públicas que se classificassem para os jogos, que tem início em 15 de setembro. A poucos dias da viagem, contudo, o Governo mudou o discurso. E avisou que pagaria apenas as passagens de ônibus, resultando numa viagem de três dias da Paraíba até o Paraná (e o mesmo tempo de volta). Com o detalhe que os gastos em alimentação nestes seis dias ficariam por conta da equipe.

Paralelo a isso, o Comitê Olímpico Brasileiro, responsável por hospedagem, alimentação e deslocamento na capital paranaense, avisou que só bancaria os gastos das equipes nos três primeiros dias de competição, que corresponde à primeira fase de disputas. E que, a partir daí, só continuaria bancando as despesas dos times classificados para as fases decisivas.

Sem saber como se manteria em Curitiba caso não se classificasse, e sem ter garantias de financiamento por parte do Estado, o time de Caiçara, todo composto por jovens pobres da cidade, desistiu da viagem. Na última sexta-feira, o técnico da escola municipal, José Edson Francisco, ligou para Adriano Lucena, técnico do Motiva, e comunicou sua desistência.

– Liguei para ele e disse: pode preparar seus meninos. A gente não vai.

O telefonema foi carregado de emoção. Mas o verdadeiro choro ainda estava por vir. Coincidentemente, Adriano estava num jantar com os pais dos atletas do time de basquete. Ele desligou o telefone. Avisou o teor da conversa. E se surpreendeu com a reação. Ninguém queria viajar. Queria, isto sim, viabilizar a viagem de quem realmente merecia.

Adriano ligou de volta para José Edson. E o que este escutou ainda agora lhe impressiona:

– Ele me ligou e disse que o Motiva não viajaria. Para minha surpresa, eles disseram que preferiam fazer uma campanha para que a gente viajasse. Estou emocionado até agora – declarou.

Em seguida, após uma breve pausa, o técnico do time de Caiçara completa:

– Já tínhamos jogado a toalha. Mas aí eles me disseram… Organize o seu time que vocês vão viajar. Para mim, essa é a prova maior de que o esporte é muito mais do que apenas um jogo.

Ele prossegue, quase sem conseguir segurar o choro:

– Somos de um programa social. São todos de famílias pobres. Não teríamos a menor chance de viajar. E, aí, o time que perdeu da gente resolve nos ajudar. Já teve mãe que se emocionou por causa do que os pais do outro time estão fazendo pelos nossos próprios meninos – declarou.

O advogado cajazeirense Tarik Pereira, pai de um atleta do Motiva, é um dos que encabeçam a campanha. Foi ele quem teve a iniciativa de convidar via redes sociais quem pudesse ajudar. Disponibilizou uma conta do Banco do Brasil e fixou o valor de R$ 6 mil como mínimo para custear sem riscos a viagem de ônibus. Quem quiser ajuda com o que pode.

– O projeto de Caiçara salva vidas e eles iriam desistir da viagem por causa da falta de condições. Isso seria um absurdo. Iniciamos a campanha e ela ganhou o país. Já recebemos dinheiro de todo o Brasil. Entraram depósitos do Rio de Janeiro e de São Paulo que a gente simplesmente não sabe de quem é – comemora Tarik.

A ideia era arrecadar seis mil reais para levar os meninos de ônibus. A campanha começou na sexta-feira. E em um dia, eles tinham arrecadado quatro mil reais. Faltava um pouco mais. Depois que a reportagem foi publicada, na tarde de domingo, a coisa saiu de controle. A primeira meta foi atingida em menos de uma hora. Os organizadores da campanha ampliaram a meta: quinze mil reais para levá-los de avião. Mas, em pouco mais de seis horas da publicação da matéria, o valor já passara de R$ 25 mil. E a previsão é que chegue a R$ 30 mil até o final do dia.

– Estamos atordoados. Estamos vivendo uma coisa totalmente nova. Não consegui trabalhar hoje. Tive que fechar o meu escritório para resolver a demanda de ligações e doações. Mobilizamos pessoas de todo o mundo. Uma única pessoa, de São Paulo, que eu nem mesmo sei quem é, doou R$ 500 – declara Tarik Pereira, um dos organizadores da campanha.

Ele completa, emocionado:

– A gente não precisa mais de nenhum centavo do poder público. Todos os gastos com passagens aéreas, alimentação e hospedagem estão garantidos. E ainda vai sobrar um saldo remanescente para outros gastos do projeto social. Já estamos pensando em adquirir material esportivo para os atletas e guardar algum dinheiro para outras competições – explica Tarik, extasiado.

Simplesmente, eles receberam doações de todos os estados brasileiros, sem exceção. E algumas do exterior.

– O objetivo foi alcançado. Agora, a preocupação vai ser prestar conta de tudo o que foi gasto. Queremos passar credibilidade ao movimento. Vamos investir tudo no próprio projeto social – completou.

Tarik Pereira explicou que recebeu também muita ligação de políticos, querendo ajudar, mas destacou que lhes foram negados qualquer holofote.

– Dissemos a todos os políticos que nos ligaram que eles poderiam doar qualquer valor como pessoa física. Mas o movimento era apartidário. Não queríamos nos vincular com nenhum lado.

Agasalhos e kits de higiene

As doações não ficaram no dinheiro. Dois grupos de mães de estudantes do Colégio Motiva estavam mobilizados em duas outras frentes: a arrecadação de agasalhos, para proteger a meninada do frito paranaense; e a compra de kits de higiene pessoal, já que os meninos não teriam dinheiro para nenhum desses itens.

– Já conseguimos tudo o que eles precisavam. Recebemos doação de vários agasalhos. E uma empresa doou bolsas com material de higiene pessoal para todos os meninos, composta cada uma com xampu, condiconador, pasta e escova de dente, entre outros – prossegue Tarik.

Vitória do time perdedor

A coisa, de fato, saiu do controle. Para o bem, claro. O próprio Colégio Motiva entrou em contato com a resportagem para informar que o telefone da escola não parou de tocar em nenhum momento nesta segunda-feira, com ligações de todo o Brasil. E, diante de todo este cenário, quem se disse extremamente emocionado foi o técnico do time vice-campeão, Adriano Lucena. Ele é rodado. Tem experiências na seleção brasileira de base. Já treinou equipes importantes da Paraíba, inclusive profissionais. Mas disse que poucas vezes se emocionou tanto.

Depois, comentou do orgulho que sente de seu time:

– Estou realizado. O que nos motivou a iniciar a campanha era evitar que um sonho morresse. O fato de termos conseguido, me deixa feliz como se meu próprio filho tivesse ganho algo. Estou feliz e ourgulhoso. O que aconteceu aqui foi uma lição de vida, de humanidade, de caráter dos meus atletas e de seus pais. É uma coisa belíssima. O esporte ensina isso. O verdadeiro esporte dá bons exemplos – resume.

COM INFORMAÇÕES DO GLOBO ESPORTE

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