Cajazeiras-PB, 21/10/2017

Cajazeiras das décadas de 1960 e 1970

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A minha Cajazeiras das décadas de (60/70) tinha mais ou menos cinco bairros, além do centro. São eles: Belo Horizonte (Alto Cabelão), Santa Cecília, Capoeiras e os Remédios. Praticamente quase todas as ruas eram calçadas com paralelepípedos e isso fazia com que a temperatura média de 35 graus, se tornasse um calor muito forte. Naquele tempo não existia nenhuma rua asfaltada. Hoje, Cajazeiras tem 24 bairros.

Tinha ainda as tanajuras – que é uma formiga alada, e em tempos mais quentes, quando está prestes a chover, saíam de suas tocas para pegar uma brisa em árvores. Quando as tanajuras começavam a voar, nós (a garotada) corríamos atrás delas para arrancar suas bundas, onde se continha uma gordura que, por sinal, a gente comia. Ao corrermos atrás das tanajuras, cantávamos: “cai, cai tanajura, tua mãe tá na gordura” e muitas vezes elas caíam mesmo.

Tinha também o inseto “Tripes”, que se reproduzia nas folhas do pé de ficus. Esse inseto era bem pequenino e preto, conhecido como “lacerdinha”. Lembro-me que na Rua Dr. Coelho tinha muitos pés de ficus e era o meu caminho obrigatório quando eu ia para o Colégio Estadual. Ao passar por baixo dos pés de ficus, as lacerdinhas atacavam se direcionando para os olhos, ocasionando uma irritação e ardência. Muitas vezes se impregnavam na camisa branca do uniforme escolar do Colégio Estadual.

A Praça do Espinho, que era próxima a rua em que eu morava, Rua Pedro Américo, também me faz lembrar do pé de baje e dos pés de castanholas. Esse pé de baje – uma frutinha pequena, vermelha e docinha, ficava na lateral do bangalô de seu Sinval do Vale. Nós, a meninada, ficávamos sentados em baixo do pé de baje jogando conversa fora e o escalava para tirar as bajes. Já em frente ao Grupo Dom Moisés Coelho, que ficava em frente a Praça do Espinho, também tinha os pés de castanholas e para tirá-las, jogávamos pedaços de paus ou pedras para derrubá-las.

Lembro-me ainda que eu e meus irmãos pegávamos frutas nos muros das casas vizinhas a nossa. É claro, com autorização. No muro da casa de seu Esmerindo Cabrinha, tinha um pé muito grande de cajarana. Na casa de seu Bernardo Batista, tinha pés de goiabas. Já na casa de seu Zezinho Macedo, tinha pés de siriguela. No muro da casa de seu Zé Cartaxo tinha cajá. Nos fundos do Colégio Diocesano Padre Rolim tinha um plantio muito grande de pés de manga, goiaba e pinha. Tinha um ditado que dizia: “pular o muro e roubar fruta para chupar é mais gostosa”. Eu já fiz essa traquinagem no muro desse colégio.

Em Cajazeiras tinha uma lavanderia pública, muito grande, que ficava próxima ao curtume – (comércio de couros de boi) – de Ulisses Mota, na zona sul da cidade, onde hoje está localizado o bairro Por do Sol. Esse local era numa estrada vi- cinal de terra a- vermelhada, próximo ao Colégio Diocesano. Lá tinha muitos pés de uma frutinha que se chamava canapu. Era uma fruta bem docinha e macia. Essa planta ficava encravada junto aos pés de carrapicho. Tinha também uma plantação muito grande de avelóz que ficava nas margens da estrada. Avelóz é um látex irritante que se não tiver cuidado pode queimar a pele.

Naquela época, devido a não existência de violência, à vista do que é hoje, muitas pessoas dormiam com janelas abertas em decorrência do calor e além das muriçocas, que dominavam o clima quente à noite, tinha também o inseto Paederus irritans, conhecido como potó. Quem nunca foi mijado pelo potó? Ele sempre aparecia em períodos finais de chuva. Ele mijava mais nos braços ou no pescoço deixando nossa pele muito vermelha. Quando isso ocorria, a gente colocava pasta dental para refrescar a pele.

Nos anos sessenta, em Cajazeiras, era comum as pessoas se encontrarem nas ruas, igrejas, comércios e outros locais públicos. Se eu encontrasse meus tios ou meu padrinho quantas vezes fosse por dia, eu tomava a bênção. Tio Raimundo Martins (Titio) era o que mais agradava a mim e meus irmãos sempre com uns trocados, e aí nossa intenção era aventurar umas moedinhas de centavos de cruzeiro para gastar nos brinquedos do Parque Lima, e ainda chupar rolêtes, ou comer amendoim torrado vendido nas banquinhas, que vinha enrolado no papel de embrulho em forma de funil, e ainda a pipoca do senhor Tinino, um senhor negro, alto, magro e muito risonho.

As crianças passavam dias, semanas ou meses sonhando com aquelas luzes coloridas da  roda gigante do Parque Lima. O Lima era de Caicó (RN). Lembro-me da chegada em Cajazeiras dos caminhões do Parque Lima carregados de brinquedos, a exemplo dos cavalinhos, trenzinho em forma de cobra, carros bate-bate, aviões que faziam barulho de aviões mesmo, mas sem causar acidente, e ainda a roda gigante. Nós, a meninada,  corríamos para a Praça entre as ruas Higino Rolim e Souza Assis, para ver o descarregamento e, em seguida, observar o trabalho dos empregados montando os brinquedos, mas o que mais chamava atenção era a montagem da roda gigante. A roda gigante com aquela armação de ferro sustentada por uma centena de parafusos grandes, cabos de aço, e com um conjunto de doze cadeiras pintadas em cores vivas, uma cor para cada cadeira. Tinha também as barracas do ‘tiro ao alvo’, onde se ganhava pequenos brindes para quem derrubasse o patinho que passava bem devagarzinho por cima de um tablado; o jogo de argolas, entre outros. Para os adolescentes – rapazes e moças – com hormônios a flor da pele, era a oportunidade da primeira namorada, que poderia vir através dos recados das difusoras do Parque Lima e às vezes o anúncio para localizar crianças que se perdiam. Quando a roda gigante parava para alguém descer ou para alguém embarcar, os casais que estavam nas cadeiras lá de cima ficavam naquele amasso. As músicas ali tocadas para os casais apaixonados, eram Nelson Ned, Agnaldo Timóteo, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e outros mais.

PEREIRA FILHO É RADIALISTA EM BRASÍLIA/DF

SOBRE Christiano Moura

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