Cajazeiras-PB, 18/11/2017
HOME » CAJAZEIRAS » Caesalpinia pyramidalis

Caesalpinia pyramidalis

GERALDO BERNARDO

Não sei dar mimos. O afeto em mim é seiva, por fora sou casca grossa, manchado pelas intempéries do tempo. Não gosto de muito grude, não que eu seja rude, sou pragmático. Dou pouca sombra a pieguice. Se fosse árvore – devo ter sido em alguma reencarnação – seria uma catingueira, lenha forte que arde em meio a caatinga. Apesar do toque agradável do caule, a catingueira solta capas de sua casca, na seca perde a folhagem, não dá sombra. Possui fendas, rachaduras, abrigo para enxames. Em oco de catingueira quase sempre tem mel. Não é contraditória? Falta-lhe o mimo da sombra, mas, nos farta com alimento tão rico.

A aspereza do tempo. Rude e inclemente, fervente e seco, nos meses de seca castigam mortalmente a pequena muda – rara cada vez mais – tal qual, a vida, vem consumindo-me, desde a tenra idade, o sumo de minhas alegrias. No entanto, deu-me a sorte ou a sina, ser o que sou, e, neste oco que meu peito ostenta, trago um enxame que produz uma espécie muito rara de mel.

É comum entre nós, mais que sina – destino, graça ou maldição – não sei. Entre os machos da minha linhagem, ocorrer que alguns são escolhidos. Primogênitos como eu. Nascemos empelicados, – se por acaso sobrevivermos – desde os tempos primordiais, quando deixamos de comer carniça. Os que nascem empelicados são escolhidos, reconhecidos na hora do parto, o cordão umbilical dá uma volta no pescoço. Se a parteira não fosse experiente eu tinha nascido anjo. Ao vir à luz causei espanto, e deste fato guardaram segredo, pois é comum entre nós que se furte em comentar tal acontecimento, principalmente ao padre, jamais devemos revelar este segredo milenar.

As etapas da iniciação começam aos sete anos, depois a cada sete até os setenta e sete quando devemos nos ocultar na floresta da sabedoria. Assim tem sido ao longo dos tempos, desde quando tínhamos quatro luas, vagando pelo planeta somos valentes soldados de Deus, seus cães de caça, caçando diabos na noite dos mundos, fazendo parte deste exército na grande luta contra o mal.

O ensinamento vem em sonhos.

Via-me, lutando contra demônios. Usando ramos de alfazema do mato para castigar os espectros. Eles também lutavam, defendiam-se, nos atacavam com os talos de pés de milho, roubados em nossas roças. Tive vários destes sonhos, por vezes enxerguei a mim sem saber, só adulto, ao ver-me no espelho descobri-me personagem de meus sonhos.

Havia um quarto oculto em cada casa de primogênito parente nosso. Em noites de dia grandes – são quatro: Dia da Chuva, Sexta-Feira da Paixão, Noite da Colheita e Lua da Semente – o escolhido dorme trancafiado, no segredo do quarto disfarçado, sótão ou porão, sempre escuro. O corpo fica, mas o espírito vagueia, das seis as seis, isto é, entre o sol poente e o arrebol matutino, lutando incansavelmente. Ao retornar vitoriosos soltamos os bezerros enchiqueirados para que mamem, pois, grande é nossa alegria que os filhotes sorvam o néctar se suas mães, tal qual o mel no oco da catingueira. Em nosso vazio há o mel da liberdade.

Nestas noites lutamos pela fartura. Para que tenhamos uma boa colheita é necessário que ganhemos a guerra, contra os bruxos que nos atacam. Caso contrário, haverá seca ou enchente, pragas ou incêndios, qualquer coisa de ruim irá acontecer para prejudicar toda a colheita. Se as crias do cão ganham a luta, perdemos todos. Pois, não haverá o que colher e a fome reinará. Quando os bruxos ganham, então eles passeiam pelos currais, derramam a água dos animais e viram todas as cocheiras, e cochicham aos bichos que coiceiem seus donos, e as galinhas não põe ovos, e os cães ficam ariscos.

O sonho é tão real que o cheiro das coisas é sentido quando acordamos, ficando todo ambiente com perfume de alfazema, quando ganhamos. Caso percamos, ao contrário, o odor de “murraça” incomodará toda vizinhança.

As primeiras lembranças que trago é de uma grande seca. Sou sobrevivente, de outras calamidades, foram diversas travessias em tempo de estio. Cada uma deixando sua marca, mais uma pele de minha casca que se solta.

De tanto perder, aprendi a cortar melhor meus ramos alfazema. Antes pensava em combater com velhas plantas por que eram fornidas em seus caules. Que nada, como as velhas idéias, os caules mais fortes não vergavam, quebravam-se ao ataque, hoje, ao contrário, luto com a força dos galhos mais moços e o perfume das flores juvenis.

Cada batalha que participamos, tira-nos a sensibilidade gratuita. Tanto eu, como meus camaradas, feiticeiros do bem, sofremos este desconforto que é não confiar. Esconder-se por trás de uma nova capa de nossa pele, mudar a feição com disfarce, imitando a catingueira que fica cinza na aridez da seca e verde na alegria do tempo chuvoso.

Sérios, consume-nos o desejo de afago. Distantes cada vez das cenas piegas, seguimos, nós, os cães do Divino, na eternidade do tempo, disfarçando emoções, afastando de nós os simples mortais, pois, temos a necessidade da solidão. Nenhum soldado-feiticeiro pode se apegar em demasia a outro humano, pois, numa destas noites qualquer podemos ir e não mais voltar.

Nem bem rompe a manhã, volto à realidade, catingueira que sou, observo cair mais uma pele, ao meu redor está perfumado, não preciso de mimo maior que este.

SOBRE Christiano Moura

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *