Cajazeiras-PB, 19/11/2017
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Bizé nos deixa

 

Desde que eu me entendi de gente, e que comecei a dar conta que o mundo não se restringia à minha rua, eu tive contato com uma família, que depois se tornaria cada vez mais próxima da nossa. Era a família que o patriarca era José Bandeira de Melo, ou Seu Bizé, que recentemente nos deixou. Vou relatar alguns fatos em que se pode ter uma ideia de quão próximas eram nossas relações. Comecemos do começo.

Quando eu era criança, em 62/63, eu vi um dos membros dessa família, o Sidney, ou, como o chamávamos Cid Nei, usando o primeiro par de sandálias havaianas que eu já tinha visto (eu que usava umas insuportáveis botas ortopédicas), e perguntando onde quando porquê, ele falou: além de mim, apenas o outra pessoa pode usar aqui no Brasil, é o Presidente João Goulart, naturalmente antes do golpe militar. E depois outro dessa família haveria de ser meu colega de escola por muitos anos, Wellington, que era cinco dias mais velho que eu, e ainda tinha Ana Bandeira, amiga de Jeanne, minha irmã, e Susana, um pouco mais nova. A matriarca era D. Rosimira, que depois soube que era da família Cartaxo, e parenta relativamente próxima. Depois nos mudamos para a Rua Padre Rolim nossas relações, de próximas passaram a ser íntimas, nós, eu e Wellington, brincávamos de acusado (o famoso “guerra para todos”), junto com nossa vizinhança, no meio da Praça das Oiticicas. E frequentávamos a mesma escola, e depois no segundo grau, fomos colegas de turma no Estadual.

Mas o objetivo dessa crônica é relembrar o que nos deixa. Nas oiticicas, ficava estacionada a maior atração do pedaço, a “caminhonete de Bizé” e a gente se fazia um monte de coisas, conversar na carroceria era o mínimo. Houve uma ocasião que o pessoal que fazia serenatas (costume que tem se perdido), e colocaram um jumento nessa. Beto de Dorinha conseguia ligar ela até, segundo dizia com palito de picolé.

Mas vamos tratar do personagem. Bizé era um dos mais antigos militantes do PSD, depois MDB, foi prefeito de seu município, Bom Jesus, que antes de ser cidade era o Sítio Aroeira (o primeiro Prefeito daquela cidade foi Dr. Julio Bandeira), noutra ocasião foi Vice Prefeito de Cajazeiras, e chegou por breve tempo, assumiu a Prefeitura, e era um cidadão, assim como um pai de família, bastante conceituado em nossa cidade, e muito chegado a nossa família.

Era um cidadão muito, digamos folclórico de nossa comunidade, tinha uma enorme fama de sovina, mas se nós atentarmos ao conceito na nossa região, devemos ver com o cuidado que deve merecer tal fama. Meu avô, major Galdino Pires, também gozava de tal fama, mas seus filhos, assim como os de Bizé, estudavam nos melhores colégios, e nenhum viviam mal vestidos, nem na mesa deixavam de ser servidos pratos decentes. Assim, tanto num caso como noutro, podemos chama-los de econômicos, diferentemente do avarento que tendo alguma coisa, deixa de cuidar da família para juntar dinheiro.

Minha bisavó, D. Sinhazinha matos, quando era criança, viu durante uma seca, pessoas assando sola de sapato para comer. Perguntou por que seus pais não davam de comer a esses infelizes, e a resposta foi “se a gente der para eles, vai faltar para nós”, já houveram tempos difíceis, e viver poupando, às vezes era uma questão de vida ou morte.

Quase aos 100 anos, Bizé, como chamávamos, deixou de conversar na Praça Coração de Jesus, e com os mototaxistas das Oiticicas. Era que ele estava doente, tanto pela idade (nem sonho em chegar aos 99 anos), como pelo fato de ele até recentemente fumava.

Esta semana faleceu.

Agora uma personalidade que chegou até onde ele chegou, necessitava ser mais homenageado do que Bizé foi, faltou até de minha parte, que perdi seu velório, uma despedida a altura.

Descanse em paz Grande Bizé. De minha parte, não lhe esqueço…

SOBRE PEPÉ PIRES FERREIRA

PEPÉ PIRES FERREIRA

Engenheiro mecânico e advogado.

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