Cajazeiras-PB, 11/12/2017
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Augusto: um poeta do contemporâneo

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O que representam 100 anos para a literatura? Muito tempo? Não para um poeta como Augusto dos Anjos. Ele é, apesar deste tempo todo, um poeta contemporâneo, na verdadeira acepção do termo. Segundo o também poeta, crítico e professor Hildeberto Barbosa Filho, é esta contemporaneidade que explica o que há nele de atual e inesgotável.

“O artista contemporâneo, segundo o filósofo italiano Aganbem, é exatamente aquele que vê o lado obscuro de sua época, indo além de suas amarras intelectivas, falando, em tese, para um tempo futuro”, explica o crítico. “Vendo o que os outros não veem, consegue descortinar as brechas e as rachaduras do processo civilizatório, sinalizando, portanto, para as questões que são permanentes, tais como: de onde vim? quem sou? para onde vou?”.

O centenário de morte de Augusto dos Anjos não é, pois, uma data a ser lembrada somente pela sua importância biográfica, mas também pelo que ela representa dentro do contexto da poesia brasileira: “Me parece uma data emblemática precisamente pela dimensão superior do poeta e pela particularidade estética e filosófica de sua poesia dentro do quadro geral da poesia brasileira”, frisa Hildeberto. “É hora de não só louvar o brilho singular de sua expressão lírica, mas, sobretudo, de refletir seriamente acerca de sua originalidade e dos muitos caminhos que abre para a poesia moderna”.

MAIS DO POVO QUE DAS INSTITUIÇÕES
Um poeta mais “sentido” do que “entendido”, Augusto foi acolhido pelos braços do povo antes de se sentar nas cátedras da Academia. “Augusto é mais do povo do que das instituições. Já se disse que ele foi salvo pelo povo, que o recita mesmo sem entender muito bem, fascinado pelo ‘mistério’ das imagens e a musicalidade tensa, marcada pela aspereza das aliterações”, reflete o professor Chico Viana. “O povo o compreende sentindo-o mais do que interpretando-o”.

Chico Viana é um dos conferencistas da 2ª edição do Congresso Nacional de Literatura (Conali) Augusto dos Anjos – A Literatura e o Tempo: Cem Anos de Encantamento, evento organizado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) que ocorre em João Pessoa a partir do próximo domingo.

“Augusto tem se prestado a vários tipos de abordagem. O que marca os estudos sobre ele na academia é o abandono das leituras biográficas, que tendiam a conceder mais ênfase ao homem do que à obra. As pesquisas acadêmicas detêm-se na forma, no artesanato, enfim, no texto”, afirma o professor.

Homenagens em todo o país

Paraibano do Século e patrono da Academia Paraibana de Letras (APL), Augusto dos Anjos será homenageado hoje em João Pessoa com a inauguração de uma estátua em dimensão humana instalada no jardim dos imortais, na sede da instituição, a partir das 19h.

São Paulo (SP) e Leopoldina (MG), onde Augusto passou os últimos anos de vida e seus restos mortais estão enterrados, também entram no circuito de homenagens: em Leopoldina, os eventos começaram desde outubro. Na capital paulista, a Casa das Rosas abre hoje a exposição Esdrúxulo! – 100 Anos da Morte de Augusto dos Anjos.

“Eu creio que a figura de Augusto dos Anjos seja um dos fenômenos mais interessantes da história do Brasil. Um voz tão singular e rara, uma poesia tão elaborada, um pensador tão contundente… nada pode explicar totalmente o surgimento desta força arrebatadora que é a poesia de Augusto dos Anjos”, diz Frederico Barbosa, diretor da Casa das Rosas.

A exposição tem curadoria de Júlio Mendonça, que explica como será a mostra: “A exposição aproveita a ocasião em que se completam 100 anos da morte de Augusto dos Anjos para lembrar e destacar a importância da sua obra na poesia brasileira. Para manter o público próximo de Augusto – que foi e é um poeta muito popular – procuramos explorar alguns aspectos principais de sua obra: o tema da consciência da morte, a relação entre sua poesia e a ciência (principalmente, a biologia) e sua percepção da vida como transformação permanente”.

‘NOVOS AUGUSTOS’
Voltando para a Paraíba, na Sapé do Engenho Pau D’Arco e da sombra ancestral do pé de tamarindo (hoje parte de um memorial dedicado ao poeta), ‘novos augustos’ vão surgindo a partir de projetos educacionais que mobilizam as escolas públicas do município. Voltado especialmente para a figura do ilustre filho da terra neste ano de centenário, o Projeto de Incentivo à Leitura Literária na Escola (Pille) está tentando ir além das comemorações e fazer algo mais pelo patrimônio de Augusto.

“Não que as comemorações não sejam importantes”, ressalta o escritor Jairo Cézar, coordenador do Pille. “Mas elas não deixam nada para a cidade. Com o Pille estamos indo de escola a escola, quebrando os estereótipos negativos que existem em torno de Augusto e construindo uma relação de identidade entre ele e as crianças através de atividades culturais”.

Com a ilustradora Luyse Costa, Jairo Cézar escreveu Augusto dos Anjos em Quadrinhos (Editora Patmos), um dos instrumentos utilizados neste processo de desmistificação.Tudo para, utilizando as palavras de Jairo, “tirar Augusto dos Anjos da caixa onde foi amarrado com nó górdio como poeta do cientificismo e da morte” e aproximá-lo das crianças.

Crianças que poderão perpetuar os genes da poesia de Augusto nas páginas de nossa literatura futura. Crianças que jovens como Bruno Gaudêncio e Leo Barbosa, ambos escritores, já foram um dia.

“Conheci o poeta no ensino médio no Estadual da Prata em Campina Grande, através das aulas de literatura. Aliás, não são poucos jovens que ficam surpreendidos pela inventividade e o exotismo presente na poesia do autor do Eu”, revela Bruno, autor hoje de três livros (dois de poesia e um de prosa).

Autor também de três livros (todos de poesia), Leo fala da relação com o poeta: “Augusto nos aponta o mais recôndito, as nossas sombras, nossas quimeras e a morbidez do quotidiano. É uma forma de nos (res)suscitar pelo assombramento e nos guiar à luz. É esse jogo de antíteses e paradoxos que lhe conferem apreço mundialmente”.

JORNAL DA PARAÍBA

SOBRE Christiano Moura

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