Cajazeiras-PB, 13/12/2017
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Aposentado apela a água imprópria quando o dinheiro acaba

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“A gente vive na promessa de chegar água amanhã. E esse amanhã nunca chega”, diz o aposentado Renato Avelino de Souza, de 67 anos, um dos 18 mil moradores de Remígio, cidade no Agreste paraibano que enfrenta a falta de abastecimento. Quando a água e o dinheiro acabam, a saída é utilizar água imprópria para consumo de um pequeno açude particular próximo à sua casa, onde também desagua uma rede de esgoto da cidade.

“A água é ruim, mas a gente não tem dinheiro para comprar outra. Quando tiro da aposentadoria, compro um tonel de 500 litros por R$ 50 e só dura uma semana para quatro pessoas lá em casa”, explica ele. O custeio do consumo de água afeta em média R$ 200 mensais dos R$ 724 que ele recebe de aposentadoria. Quando a água acaba e os R$ 200 já foram gastos, ele apela para o açude. O aposentado afirma que até o momento ninguém de sua família ficou doente por consumir essa água.

Ele é um dos 167 mil paraibanos de 15 municípios que estão com o abastecimento de água em colapso, de acordo com a Defesa Civil. O estado ainda tem 13 municípios com sistemas em alerta, cujos açudes estão com menos de 20% da capacidade, e 29 em racionamento, com abastecimento funcionando abaixo da totalidade, dentro de um cronograma preestabelecido de abertura e fechamento de comportas.

No distrito de Barra de São Miguel, em Esperança, município com 32 mil habitantes também no Agreste e que também convive com o racionamento de água, uma família de seis pessoas subsiste da agricultura familiar. Segundo a dona de casa Patrícia Targino, em média a cada duas semanas é comprado um “pipa” para o abastecimento da cisterna. O carro de mil litros custa de R$ 150 a R$ 200 na cidade.

Como o aposentado de Remígio, o agricultor José Fernandes Targino, de 64 anos, explica que a água, seja de boa ou má qualidade, precisa ser suficiente para uso doméstico, para beber e para os animais – pouco mais de 10 vacas e bois, algumas galinhas e um cachorro.

“Dependendo do açude onde eles buscam a água, pode vir meio barrenta, mas é o jeito comprar pelo preço que oferecer, porque não tem ninguém ajudando a gente. Essa água é para tudo, toda a família e os bichos. Graças a Deus não aconteceu nada ainda, mas, se alguém adoecer por causa da água, a gente nem sabe o que fazer, porque precisa ir até Campina Grande receber atendimento”, contou o agricultor.

O açude de Vaca Brava, que abastece ambas as cidades de Esperança e Remígio, está com apenas 8% do seu volume máximo. Por isso, segundo informou a assessoria de comunicação da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa), as duas cidades passam por racionamento. Em Remígio, segundo a Cagepa, o abastecimento ocorre somente três dias por semana, e em Esperança, em quatro dias. Entretanto, a Defesa Civil do estado informou que ambas as cidades estão desabastecidas e apenas os carros-pipa atendem a população. Os moradores de Esperança são atendidos por quatro carros-pipa do Exército Brasileiro, enquanto os habitantes de Remígio contam com seis pipeiros.

A Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba informou que desde 2012 todo o semiárido paraibano – Cariri, Curimataú e Sertão – além de parte do Agreste, sofre com a estiagem. Com chuvas irregulares este ano, apesar de próximo da média histórica registrada pelo órgão, não houve recarga suficiente dos açudes, e 28 dos 123 mananciais continuam em situação crítica (com menos de 5% da capacidade).

O ano de 2014 registrou leve melhora no índice de chuvas na região. “Em 2012 e 2013 foram chuvas abaixo da média histórica. Em 2014, a previsão em boa parte do estado é ficar bem próximo da média, mas a situação é tão deficitária que não chegou a recuperar [a recarga dos açudes]. Principalmente no Semiárido, apenas a região da Mata manteve a média. As chuvas irregulares são o principal problema”, explica a meteorologista da Aesa, Carmen Becker.

Carros-pipa
O Governo da Paraíba suspendeu o programa com carros-pipa. Segundo o gerente executivo da Defesa Civil estadual, coronel Cícero Hermínio, o governo federal não mandou mais recursos, impedido contratações. “Em alguns municípios temos chuvas acima da média, mas, por incrível que pareça, não juntou água [nos açudes]. Os recursos hídricos de superfície estão muito aquém. Vai haver reunião dos governos do Nordeste para mostrar a situação atual e apresentar propostas estruturais. O Ministério da Integração ainda vai convocar [a reunião]. Vamos mostrar o quadro da Paraíba e levar nossas propostas”, explicou o gerente.

No Nordeste, apenas os governos da Paraíba e do Piauí não contratam carros-pipa atualmente.

O Exército informou que usa 1.023 carros em 156 municípios paraibanos, dentro da Operação Carro-Pipa do governo federal. A Paraíba é o segundo estado mais atendido pelo programa no Nordeste, atrás apenas da Bahia (157 cidades).

O Ministério da Integração Nacional informou, por meio da assessoria de comunicação, que a operação “segue em pleno andamento na Paraíba e nos demais estados do semiárido”, atendendo mais de 410 mil pessoas.

“Ressalta-se que a operação federal pode ser ampliada na Paraíba e nos demais estados do semiárido. Para isso, os municípios ainda não contemplados podem solicitar, em qualquer tempo, a sua inclusão à Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, do Ministério da Integração Nacional. Todos os pedidos são encaminhados para o Exército Brasileiro, responsável por avaliar as necessidades e cadastrar os municípios”, conclui a nota.

Não houve comentário específico sobre a falta de repasses federais alegada pela Defesa Civil do estado.

Distribução
A Prefeitura de Remígio informou que implantou um calendário de abastecimento d’água semanal na cidade. A distribuição é feita por meio de seis carros-pipa, e a quantidade de água para cada residência é discutida entre as lideranças comunitárias e moradores no momento da distribuição. O problema na zona rural ocorre desde janeiro de 2013 e na zona urbana começou em julho deste ano.

Segundo Antônio Júnior, o abastecimento na cidade está comprometido por causa do esvaziamento do reservatório de Vaca Brava. A barragem de Camará, em Alagoa Grande, atualmente em reconstrução, é apontada pela prefeitura como uma outra ação que deve melhorar o abastecimento d’água na cidade. O secretário de Comunicação e Eventos de Remígio, Antônio Júnior, explicou que, para atenuar o problema, a prefeitura tem investido na perfuração de dez poços na área urbana em parceria com o governo do Estado, e para a zona rural o poder público já construiu, desde 2013, cerca de 200 pequenos açudes e barreiros para captar as águas da chuva.

Já em Esperança, o secretário municipal de Agricultura, José Adeilton, afirmou que há mais de três meses a prefeitura da cidade vem custeando cinco carros-pipa por semana para garantir água à população, estimada em 30 mil habitantes. Na área urbana, os três chafarizes são abastecidos com a água dos carros-pipa, e na zona rural as cisternas são reabastecidas pela prefeitura. A ajuda vinda do Exército, segundo ele, foi reduzida de cinco para três carros-pipa devido ao racionamento na barragem de Boqueirão.

A Prefeitura de Esperança adquiriu máquinário para a limpeza dos 12 barreiros que podem receber água das chuvas no futuro. Dependente do reservatório de Vaca Braca, a cidade de Esperança também deve ser beneficiada com a inauguração da barragem de Camará, localizada em Alagoa Grande.

Prejuízo para a agricultura
Segundo o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Paraíba (FAEPA-PB), Mário Borba, não há estimativa do prejuízo causado pela seca. Ele ressaltou que “a safra de grãos já é insignificante e se tornou ainda pior nos últimos anos”. “Em termos de valores não tenho números, mas já estamos trabalhando no vermelho desde 2012 porque a produção de grãos da Paraíba é apenas familiar e de subsistência”, diz.

São 15 municípios com abastecimento de água em colapso, 13 estão em alerta, com sistemas de abastecimento a menos de 20% da capacidade e ainda há 19 cidades também enfrentando racionamento.

G1

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