Apolo 11: a esquerda acusa a direita


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O alvo era a democracia. Impedir a abertura política. O bispo dom Zacarias Rolim de Moura seria o instrumento da extrema-direita, que teria colocado a bomba no Apolo 11, em Cajazeiras (PB), na noite de 2 de julho de 1975. Essa é a versão da esquerda, organizada à época com um embrião do Partido Comunista Revolucionário (PCR), formado por estudantes e ex-seminaristas. Jovens que, em 1967, tinham derrubado a bandeira dos EUA e hasteado a do Brasil em praça pública.

A morte do bispo conservador da Diocese de Cajazeiras, a 460 km de João Pessoa, dom Zacarias Rolim de Moura, causaria um impacto e comoção nacionais e seria atribuída à extrema-esquerda, inviabilizando assim o projeto de “distensão lenta, gradual e segura” do regime militar, anunciado pelo general-presidente Ernesto Geisel, que havia assumido em 1974. Cidade culta e politizada, Cajazeiras tinha vivido a efervescência do movimento estudantil nos anos 60, que se mantinha organizado nos anos 70. Historicamente, tinha personagens políticos progressistas, como o então ainda vivo Sabino Guimarães Coelho, o grande dirigente comunista de Cajazeiras. Candidato a deputado federal em 1945, pelo PCB, chegou a ser preso pós 1964. E como o advogado e deputado estadual, pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), o “agitador” João Bosco Braga Barreto.

 

Paralelamente, havia se instalado na cidade uma célula do Partido Comunista Revolucionário (PCR), clandestino (ilegal), fundado em 1966 a partir de uma cisão no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que em Pernambuco atraiu militantes do movimento estudantil e ativistas das extintas Ligas Camponesas. A cidade era assim um raro cenário para quem conspirava contra a abertura política. “O alvo era a democracia. Era fazer Geisel retroceder. Eles diriam que não tinham como abrir porque a extrema-esquerda estava praticando atentados. Na verdade, quem jogava para desestabilizar era a extrema-direita”, acusa Edval Nunes Cajá, 60, ex-seminarista do Seminário Nossa Senhora da Assunção e ex-presidente do Grêmio Estudantil.

 

Nascido em Bonito de Santa Fé, a 55 km, Cajá foi levado pelo pai para o Seminário, uma das raras oportunidades de futuro para filhos de camponeses. Questionando a riqueza da Igreja e o conservadorismo do Vaticano, Cajá deixa o Seminário em 1969 e conclui o ginasial em 1971. Matriculado no Ginásio Pernambucano, no Recife, chega em fevereiro de 1972 para estudar o clássico (atual ensino médio) e residir na Casa do Estudante de Pernambuco, no Derby. No Recife, conhece e identifica-se com o PCR. Leva o estatuto e o programa para o grupo de ex-seminaristas e estudantes militantes de Cajazeiras. “Não queríamos partido reformista. Todos entraram no PCR”.

 

Em 1975, vem a bomba no Cineteatro Apolo 11. “Pensei: será que algum companheiro por conta própria fez aquilo? Não, nossos companheiros lá seguiam uma linha política e tática em consonância com a direção do partido, que era a de fazer o trabalho de massa. Mas, ficou a preocupação com alguma acusação para incriminar o partido. Isso não ocorreu”, diz.

 

Natural de São José de Caiana, a 70 km, ex-seminarista e presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade Filosofia, Ciências e Letras (Fafic), Luiz Alves de Lima, 56 (à época com 21), argumenta que, na década 70, o movimento estudantil atuava mais no trabalho de consciência política. “Não existiam mais condições para mobilizações de rua”, isenta o movimento Luiz Alves, até hoje no PCR.

 

Bispo conservador, anticomunista, apoiador do regime militar e admirador da fundamentalista católica Tradição, Família e Propriedade (TFP), dom Zacarias seria o instrumento para se atingir a democracia. O ato terrorista seria atribuído à extrema-esquerda. “Sabino Guimarães não foi interrogado nem foi preso. É uma prova que eles sabiam que a bomba era da extrema-direita. Essa é a razão da não divulgação das investigações e do inquérito da Polícia federal”, aponta Cajá.

A tomada da bandeira dos EUA nas ruas de Cajazeiras

22 de agosto de 1967, aniversário de fundação de Cajazeiras. De repente, guerra na Praça do Coração de Jesus, centro da cidade. Minutos antes, uma moça da sociedade cajazeirense, em carro aberto alegórico – trono posto sobre um caminhão adaptado, com uma coroa de rainha na cabeça e biquíni comportado -, agitava a bandeira dos Estados Unidos. Desfile organizado pela Cruzada ABC (Ação Básica Cristã), financiada pela Aliança para o Progresso, proposta pelo presidente John F. Kennedy, em 1962, seguia sob marcha militar de cerca de 200 jovens e voluntários. Na hora combinada, soa o apito e perto de 50 secundaristas, articulados em meio a mil de escolas públicas que assistiam ao desfile, partem para cima do caminhão. Em minutos, a bandeira norte-americana é recolhida e a bandeira do Brasil está hasteada. Seguem-se os discursos improvisados que ressaltam a tradição cultural, a rebeldia política, a defesa de ideias revolucionárias e os protestos contra a dominação norte-americana.

 

Mais dez minutos e chega o Tiro de Guerra, comandado pelo sargento Barbosa (alagoano José Barbosa de Carvalho Filho) e 80 homens com fuzil de sabre e em marcha de ganso, que cercam o quadrilátero da praça. A resposta dos estudantes rebeldes é imediata com pedras. Outros pegam carros chapeados de armazéns como escudos. Na praça de guerra, os recrutas disparam para cima, assustam, dispersam e prendem líderes e estudantes mais agitados. “Impedimos aquele desfile que insultava a consciência política de Cajazeiras. Ver o desfile da bandeira de outro país na nossa cidade, quando a tradição nossa era exatamente de lutar pela liberdade? Tomamos a bandeira (dos EUA) e a bandeira do Brasil foi hasteada. A data da cidade era o dia da rebeldia, dia em que o grêmio protestava contra a ditadura e o imperialismo com uma passeata”, recorda Edval Nunes Cajá, à época com 17 anos, do batismo na militância estudantil e política.

 

A Aliança para o Progresso foi proposta pelo presidente John Kennedy e aprovada em encontro de países em Punta del Este, Uruguai, para combater a influência cubana na América Latina. Incluía a alfabetização de adultos e a doação de alimentos para a merenda escolar. “Eles mapearam as cidades com maior politização nos interiores, como Cajazeiras e Feira de Santana (BA), no Nordeste. O programa era um anestésico”, destaca Cajá.

 

O advogado João Bosco Braga Barreto e o monsenhor Vicente Freitas, diretor do Colégio Comercial, libertam os detidos. Estudantes e soldados ficaram feridos. O presidente da proscrita Associação dos Estudantes Secundaristas de Cajazeiras (Aesc), Adalmir Coelho, oriundo do PCB, líder do confronto, deixa a cidade porque é procurado. Morre na década 70 em desastre de automóvel entre João Pessoa e Cajazeiras.

A lição dos padres italianos

Acusados de organizar e agitar os camponeses a partir de 1974 – em reuniões fechadas e nunca comunicadas ao bispo – e de confrontarem a orientação pastoral de dom Zacarias Rolim, padres italianos oriundos de Verona e ligados ao movimento Cristãos para o Socialismo estavam no foco da efervescência política. Recém ordenados, os primeiros chegaram no final dos anos 60 e os outros até 1976, compromissados com a Igreja libertadora e a opção preferencial pelos pobres. Idealistas, tinham uma visão utópica de socialismo.

 

Ex-aluno no seminário diocesano de Cajazeiras, Luiz Alves reconhece que havia um choque dos italianos com a linha de ação pastoral de dom Zacarias. “Eram jovens e escolheram o Nordeste, o Sertão de Cajazeiras e o bairro mais pobre (o Camilo de Holanda) para o trabalho. Atuaram com os camponeses em Cachoeira dos Índios (município a 21 Km). Mas eram pacíficos. Não era um confronto grave”, defende Luiz Alves, que foi aluno de Walter Strapaghetti e Mauro Carmo. Dois outros eram Albino Donatti e Giuliano Pellegrini. “No seminário, eles não se manifestavam politicamente”, ressalva.

 

Na Rádio Difusora, o padre Pellegrini chama o bispo de “mau pastor”, irritando os opositores. Com a autoridade contestada e pressionado pelos conservadores, dom Zacarias pede à Diocese de Verona a retirada dos italianos. Acaba o conflito.”Dom Zacarias era um homem de muita habilidade. Nunca falava mal dos bispos progressistas. Era conservador e tinha uma diocese que procurava arrecadar recursos. A Diocese de Cajazeiras é rica e patrimonialista. Ele ajudou a construir isso”, diz Cajá.

Reportagem publicada na edição de 08/05/11 no Jornal do Commercio de Pernambuco.

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