Cajazeiras-PB, 18/11/2017
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A pipa de Butler

A ignorância está na raiz de toda intolerância. E não falo da ignorância produzida por uma modernidade “esclarecida” que qualifica alfabetizados e desqualifica analfabetos, inventando mundos distintos e nomeando homens e mundos a partir de uma classificação política determinada pelo acesso, ou não, ao mundo escolar.

Falo da ignorância política inventada pelo proposital desconhecimento das coisas e capaz de gerar atitudes fascistas e contextos e conjunturas de violência, massacres, mortes.

Ignorância que, bebendo na fonte de várias motivações (religiosa, política, cultural, social), vai arrebanhando adeptos incautos com a sedutora magia da supremacia, da divisão entre bons e maus, santos e pecadores, belos e feios, homos e héteros, bruxas e virtuosas. Uma divisão que não permite questionamentos, mas aceita obediência servil. E quando se divide a compreensão do todo constituído e instituído por partes únicas e peculiares se dilui na quimera dos melhores e piores, dos bons e dos maus, dos eleitos e dos excluídos.

E a humanidade, em sua histórica trajetória neste nem tão mais azulado planeta, é farta em momentos de horror, massacre, eliminação, justificados por esta ignorante divisão de mundo entre santos e pecadores, cristãos e gentios, arianos e judeus, homens e mulheres, héteros e homos, branco e preto.

Divisão que não aceita, por exemplo, que o Deus que habita em mim pode partilhar a mesma crença do Oxum que habita em você. E como o meu Deus é supremo, superior, único, guerras, torturas, fogueiras justificam eliminar o Deus diferente do meu, com pouca ou nenhuma relevância para quem celebra este Deus, para aquele onde este outro Deus escolheu como casa e morada. Assim, o humano do outro desaparece quando ele não mais é reflexo de minhas próprias crenças e convicções. E está armada a cena própria da eliminação.

Uma eliminação que, em reiterados momentos, se transveste de normalidade, de legitimidade, de defesa da família e de valores éticos. Assim, bandeiras são içadas, mastros tremulam insígnias, armas são inventadas, teorias são elaboradas. Tudo convergindo para a instituição de visões únicas, perspectivas solteiras, janelas ímpares. E, nestes tempos de intolerâncias, o medo se faz natural como defesa de minorias. O medo, no entanto, que dá coragem a tantas vozes que, mesmo na contramão da intolerância, são capazes de emitir seus brados dissonantes.

E, assim, a poesia da cantora paraibana Socorro Lira surge como flâmula de força, pois “quem duvida que pipa de criança também lança por terra arranhacéu?”.

Para Judith Butler que, como crianças empinando pipas, derruba por terra sólidos arranhacéus de teorias fossilizadas e areja nossos pensares, apesar de toda intolerância.

SOBRE MARIANA MOREIRA

MARIANA MOREIRA

Jornalista e professora universitária.

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