A força de um presente

A coluna semanal de Mariana Moreira

AM3 – 250×250

As mãos que dedilham as cordas do violão revelam simplicidade e escondem dores que a doença, paulatinamente, impinge. A voz, em momentos embargada pela emoção, soa melodiosamente com a mesma beleza de minha infância. A serenidade do rosto, de leves rugas e de gris cabelos, esboça sorrisos que escapam sorrateiros. Os risos e vozes misturadas nas prosas e melodias povoam o ambiente de sons difusos de alegrias e sabores.

As mesmas mãos que, numa atitude de sincero afeto, me estende um presente capaz de, no primeiro dia do novo ano, me tocar como alvíssara de força e energia para as batalhas e pelejas que se anunciam. Um presente traduzido em caixas por essas mãos confeccionadas com a sutileza dos gestos desenhados em letras, pontos e linhas trançadas. Em um cartão de votos e desejos de felicidade com o contorno de desenhos rabiscados em ponta de caneta e vôos de abraços. Em uma pequena caixa também confeccionada em traços e linhas que exalam cheiros e aconchegos de um sabonete, cuja essência se perde em lembranças de ontens.

Para muitos, no estilo fugidio dos nossos tempos, esses gestos se revelam banais, irrelevantes, dispensáveis por produzir raízes e fincar solidez de hábitos e sentimentos. Qual importância tem simples caixas confeccionadas com papel ofício e películas plásticas coloridas, costuradas com linhas e agulhas e desenhada com traços e rabiscos de caneta?

Qual valor de um cartão de votos de felicidades no novo ano feito da dobradura de uma folha de papel ofício e traçados de letras e desenhos manuais reveladores do afeto, dos cheiros e afagos que somente os atos de madrinhas que amam são capazes de traduzir em criações de arte, beleza e leveza?

Ora, banalidades…

No grande magazine alinhado encontra-se uma diversidade de opções mais coloridas, mais requintadas. Um requinte que esconde na massificação e na homogeneização a marca do humano traduzido no trabalho e na criatividade. O humano que se dilui na exploração, no anonimato, no lucro que escraviza e bestializa. Que se perde nas mercadorias que ganham vida e autonomia na submissão de gentes.

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E minhas caixas de presente, frágeis como os gestos e sentimentos que as produziram, ganham robustez quando minh’alma se alegra e se fortalece com a pujança das palavras que desdenham sua tampa, das letras que formam palavras que associam frases e verdades comuns, triviais, mas necessárias a nossa humanidade.

O presente ganhei de minha madrinha Benedita, no primeiro dia do ano.

Presente que subverte a ordem das coisas, pois a celebração era dela e de seu esposo Antonio, nas comemorações das bodas de ouro.

Um presente que se associa a outros que, ao longo de minha vida, de forma quase imperceptível, me abastece os arquivos de doces lembranças, como o aconchego de sua casa em João Pessoa, na primeira vez que vi o mar, aos quinze anos.

E como retribuir tão expressivo presente.

Apenas desejando que o sentido que ele encerra não se dilua nas banalidades de nossos tempos.

ELIANE BANDEIRA

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