Cajazeiras-PB, 21/11/2017
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A corrupção e os homens de bem

Em tempos de lava jato, andaime, monte sinai e tantos outros sugestivos nomes utilizados para batizar  operações policiais e judiciárias instituídas com o objetivo de apurar desvio de recursos públicos e apropriação indevida uma questão ganha a cena e assume múltiplas configurações e elaborações, atendendo conveniências e interesses. A corrupção entra em cena como o elemento central de um debate que promete expurgar o país de todos os males e instituir procedimentos éticos assentados na lisura e na transparência.

Ora, mas o que é a corrupção? Como ela se institui como prática e se legitima como procedimento corriqueiro, se naturalizando como proceder comum e inerente às relações dos sujeitos com a coisa pública?

A primeira questão que se coloca como entrave para o entendimento da corrupção é considera-la uma prática dos tempos atuais, e não uma senhora quatrocentona que, em frequentes momentos de nossa história, estendeu seus tentáculos em múltiplas direções. Em recorrentes episódios de nossa experiência enquanto colônia, império e república ela determinou condutas administrativas, imprimiu sacrifícios a consideráveis contingentes populacionais privados da presença do Estado na ação e atuação de promoção da saúde, da educação, do trabalho, da moradia, da segurança.

 

Não considerar a histórica presença da corrupção como uma indesejável, mas permanente, companheira de nossa trajetória de nação atrofia nossa capacidade de lidar com a questão nos dias atuais. Não podemos virar o retrovisor como se os rastros e pegadas deixados na estrada tivessem sidos varridos por vendavais de moralidade. Avaliarmos as manifestações da corrupção, hoje, deve ter como parâmetro as formas e procedimentos adotados, ou não, em outros momentos.

Outro aspecto que escapa da apressada tentativa de situar a corrupção como um fenômeno atual é construir um fosso entre as práticas de corrupção e o nosso cotidiano. Normalmente, atribui-se a personificação de corrupto a um personagem distante, além do nosso dia a dia. Alguém que, incorporando todos os atributos de perversidade e maledicência, não tem nenhum constrangimento em se apropriar de recursos públicos que seriam destinados à construção de hospitais, escolas, postos de saúde, moradias. Alguém que, sem nenhum temor de dignidade ou humanidade, lesa o tesouro público, se apodera de meios e instrumentos públicos para atender interesses pessoais.

Mas, quando a corrupção bate a nossa porta, escancara-se diante de nossos olhos e se personifica em pessoas com quem dividimos o bom dia e o cafezinho na lanchonete da esquina, montamos as mais mirabolantes operações de justificativa para amenizar ou descaracterizar o que é corrupção.

 

Quando estacionamos em local indevido, mas usamos nossa posição social ou política para justificar esse ato, não é corrupção. Quando policiais militares estacionam a viatura, quase todos os dias, em uma esquina, obstaculizando a visão de motoristas, apenas para fazer o lanche em um trailer também indevidamente situado na rua, isso não é corrupção, mas tão somente uma atitude necessária.

E isso acontece quase todos os dias nas proximidades de um posto de gasolina vizinho a antiga Estação Rodoviária da cidade.

Ora, mas isso não é corrupção. Afinal, conhecemos os policiais, o vendedor de sanduiches. Todos, homens de bem.

SOBRE MARIANA MOREIRA

MARIANA MOREIRA

Jornalista e professora universitária.

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