Waldir Pires, um homem de bem

A COLUNA SEMANAL DE FRANCISCO SALES CARTAXO ROLIM

ROBERTO STUCKER FILHO
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Ninguém na política brasileira se igualou a Waldir Pires, em matéria de retidão de caráter. Uma raridade no mundo político, dominado pela lei de Gerson. Quinta-feira passada, dia 22, em Salvador, Waldir fechou os olhos de vez. Sua última aparição pública se dera dez dias antes, no lançamento de sua biografia, escrita pelo jornalista, doutor e deputado federal do PT, Emiliano José. Waldir já demonstrava enorme cansaço por carregar seus 91 anos de luta.

Ingressou muito cedo na política pelas mãos de Antônio Balbino, grande chefe do velho PSD baiano. Fez carreira meteórica: secretário do govenador Regis Pacheco, um ano após formar-se em direito, em 1949; em 1954, é eleito deputado estadual e líder do governo Balbino; 1958, deputado federal, vice-líder de JK; em 1962, disputa o governo da Bahia, pelo PSD, apoiado pelos comunistas, sendo vetado pela Igreja. Perde a eleição para Lomanto Júnior, (UDN). Nessa época conheci Waldir. Estudava direito em Salvador e atuava no movimento estudantil.

Jango no governo, Waldir ocupa a consultoria-geral da República. O golpe o leva para exílio no Uruguai e na França. De onde regressa ao Brasil e retoma as atividades partidárias, no MDB, após a anistia política. Com a morte de Tancredo, assume o ministério da Previdência e, em 1986, vence a eleição para governador da Bahia, já agora pelo PMDB, um ano depois da morte de Tancredo Neves.

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Eu estava na chefia de gabinete do superintendente da Sudene, Dorany Sampaio, do PMDB. O adjunto era João Ferraz, do PFL. Essa dualidade de comando era fonte de intriga, encrenca e atritos. Um horror. Ora, o PMDB elegera, em 1986, todos os governadores no Nordeste, menos o de Sergipe. Como deveria ficar a Sudene, a partir dessa vitória? Valdir Pires, junto com Arraes, que vencera a eleição em Pernambuco, articularam indicar um nome do PMDB para ocupar a superintendência–adjunta da Sudene. Waldir redigiu correspondência ao presidente José Sarney, indicando meu nome. E o fez com a simplicidade habitual. Sentou-se à máquina e preparou o texto, que foi assinado até pelo governador sergipano, do PFL. Sarney fez ouvidos de mercador. Sua gestão era assim, cheia de artimanhas: um do PMDB e o outro do PFL, para fiscalizarem-se, mutuamente. E ele, Sarney, lavar as mãos. E reinar.

Waldir derrotara, então, o poderoso esquema de Antônio Carlos Magalhães, construído no vácuo das lideranças de oposição – cassadas pela ditadura ou perseguidas com ferocidade por ACM -, e com base nas benesses do regime militar. Coitado de Waldir! A coalizão partidária que dava sustentação ao governo Sarney minou seu poder na Bahia. Por isso, ele deu um passo arriscado. Fez-se vice de Ulysses Guimarães na eleição presidencial de 1989. Para tanto, Waldir renunciou ao governo da Bahia, entregando a Nilo Coelho, empresário de Guanambi. Foi o maior erro político de Waldir. Mesmo assim, voltou em 1990 à câmara federal com impressionante votação, já então pelo PDT, no qual pouco demorou. Em 1994 perdeu a luta para o senado para um preposto de ACM, em eleição fraudada, dizem até hoje.

Em 2003, já filiado ao PT, torna-se o ministro que implantou a Controladoria Geral da União (CGU). Elegeu-se, em 2012, vereador em Salvador, seu último cargo eletivo. Waldir, um homem de bem, deve ter sofrido muito no final de sua vida por conviver com tantas falcatruas. Inclusive de seu próprio partido.

ELIANE BANDEIRA

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