[RUBENS NÓBREGA] Violência na Paraíba já é calamidade tão prolongada quanto a seca


Campanha eleitoral pode ser uma excelente oportunidade para o cidadão conhecer e discutir os maiores problemas da sua cidade, do seu estado, do seu país. Serve também para o mesmo cidadão, sozinho ou coletivamente, descobrir soluções para os mesmos problemas. Mas o processo eleitoral pode servir também para desplugar o mesmíssimo cidadão da realidade que o cerca, direcionando quase toda a sua atenção para candidaturas e a disputa pelo poder.

Deve também contribuir para a anestesia geral o comportamento da imprensa, que igualmente tende a priorizar e destacar continuadamente os assuntos da campanha eleitoral, ao tempo em que secundariza as questões mais relevantes que se mantêm insolúveis e dizem respeito, por exemplo, ao cotidiano dos serviços públicos prestados à população. Questões como a precarização nos serviços públicos de saúde, de educação, de segurança pública

Na Paraíba, especialmente, a peleja política e eleitoral consegue arrebatar mais espaços, manchetes e pautas até mesmo da continuada e crescente violência que aterroriza todos os paraibanos. Mas esse aparente esquecimento ou ‘desprestígio’ jornalístico não tem, evidentemente, o condão de afastar as pessoas de bem da ação de bandidos como aqueles que na manhã de ontem (24) invadiram uma loja em Santa Rita e de lá levaram 50 celulares, além de R$ 150 mil em dinheiro, segundo os informes da ‘crônica policial’.

Concentrada nas eleições e possivelmente ‘envernizada’ diante da banalização de fatos como esse, a maioria da população talvez dê pouca importância ao episódio, mas o faz seguramente porque não atenta, primeiro, para o trauma que sofreram funcionários daquela loja; segundo, mas não menos importante, porque não se dá conta de que assaltos a pessoas e a estabelecimentos comerciais e bancários fazem dos crimes contra o patrimônio uma calamidade tão prolongada quanto a seca na Paraíba.

Diante dessa circunstância e na atual conjuntura, não há como esperar do conjunto da sociedade paraibana maiores atenções ou preocupações com os prejuízos emocionais e materiais que donos e empregados de uma construtora da cidade de Piancó sofreram também na manhã de ontem. Lá, uma funcionária da empresa foi assaltada por dois homens armados quando levava R$ 17 mil para fazer o pagamento dos funcionários. Os bandidos levaram o dinheiro e fugiram no carro da moça.

E o que dizer do casal de idosos e outro morador de um sítio na zona rural de Assunção espancados por ladrões que invadiram a propriedade na terça-feira (23)? Ou de outro casal, mais jovem, que teve a sua casa em Alagoa Nova invadida por assaltantes armados e encapuzados no começo da noite daquele mesmo dia? Já pensaram na aflição por que passou a dona de casa desse último caso ao ver seu marido sendo levado como refém? Causa alguma comoção a mais para além do momento que fatos como esse são noticiados? Alguém aí ouviu falar de Polícia mobilizada para prender os facínoras que cometeram tamanha brutalidade?

E na Capital do Estado, onde o Hiperbompreço do Bessa sofreu esta semana, desta vez contra a lotérica do supermercado, o terceiro assalto agravado por tiroteio em pouco mais de um mês? Alguém aí, além dos feridos, ainda lembra desse caso? Talvez não dê tempo de guardar na memória. Afinal, tem fato novo no pedaço. Na madrugada de hoje foi retomada a série de ataques a banco no interior do Estado. Em Soledade, um bando explodiu a principal agência bancária local e encurralou a tiros os cinco policiais que se encontravam na sede do destacamento na PM. Em Assunção, foi a vez do cofre dos Correios voar pelos ares ao ser dinamitado provavelmente pela mesma quadrilha.

Mas a violência não detém a exclusividade da retomada da semana. Em entrevista à rádio Tabajara, o governador Ricardo Coutinho também retomou hoje sua artilharia contra os bancos que, segundo ele, nada fazem para proteger suas próprias instalações. E advertiu: se não tomarem providências, vai aprovar na Assembleia Legislativa lei que obriga o recolhimento do dinheiro dos caixas eletrônicos a cada final de tarde e reabastecimento na manhã seguinte. Pois é… Quando essa lei entrar em vigor, recomenda-se que ninguém saia de casa por volta das cinco da tarde. Pode ser que na rua emparelhe ou cruze com algum alvo dos assaltantes de banco. Alvo móvel, também conhecido como carro-forte.

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