Cajazeiras-PB, 21/10/2017

Reminiscências juninas

Surgindo como um anjo torto de tantas passadas e ladeiras rodopiadas de vestidos alegres e sombrinhas coloridas Joana de Belâdio plaina em passos e volteios de acordes de forró nos transportando para tempos de pavilhões enfeitados de acanhadas e coloridas bandeirolas de papel de seda tangidas pela brisa fresca que soprava nas noites juninas. Uma brisa que trazia o aroma das águas-pés crescidas nos poços e bebedouros sobrados das invernadas e tremulava os lampiões de querosene que projetavam apagadas figuras nos terreiros aguados de dança e alegria. Sua acanhada euforia enquanto dançava com cavaleiros imaginários se esboçava num enigmático sorriso que alterava o traçado da boca e invertia o brilho de olhos. Olhos que lançavam feixes de reminiscências em direção a um tempo de folguedos e crenças em promessas mais benfazejas.

Enquanto Joana bailava em suas leves acrobacias de dançarina contumaz dos forrós e “sambas” que pululavam nos finais de semana das festividades de safras e colheitas, inúmeras paisagens de tempos vários se somavam em um impressionante caleidoscópio que desenhava traçados e formas de memórias. Desenhos que se projetavam e ganhavam materialidade nos odores e sabores dos bolos de massa puba, no som chiado e inconstante do rádio de pilha que anunciava o mais recente sucesso de Luis Gonzaga. Sua performance de bailarina sertaneja se faz acompanhar de caras, sons e risos que, ausentes de uma materialidade, se concretizam em imagens paternas de risadas e lorotas que acompanhavam o gesto simples de acender a fogueira, em trejeitos maternos soprando o velho forno a lenha que insistia em queimar os bolos de milho e arroz, em algazarras e gritarias de meninos correndo em volta da chama em busca dos traques displicentemente escondidos pelos irmãos mais velhos.

No terreiro a madeira verde de juazeiro crepita faíscas na direção de um céu enevoado de fumaça e murmúrios. Na bacia a água reflete rostos de hoje que tentam escapar do inevitável de amanhã. Momentos imortalizados pela profusão da parafernália que transforma cada um em eficiente e notável arquivista e memorialista de nosso cotidiano. Muitos desses rostos serão memórias e saudades de outras fogueiras. Mesmo que o dançar de Joana continue como uma forte presença, não mais teremos em nossos terreiros os folguedos e festejos de tempos de infância. E, metamorfoseando Manoel Bandeira, apenas a melancolia de um despertar no meio da noite e  “Não ouvi[r] mais vozes nem risos. Apenas balões [que] passavam, errantes”.

SOBRE MARIANA MOREIRA

MARIANA MOREIRA
Jornalista e professora universitária.

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