Cajazeiras-PB, 24/10/2017

[RAFAEL HOLANDA] Um amigo

Eu tinha um amigo. Amigo daqueles que por mais que tentasse chegar a dimensão de suas bondades mais quilômetros permaneciam aparecendo. Era de uma bondade ímpar, casado e com quatro filhos, dos quais dois portadores de excepcionalidades avançadas, e era por isso, que eu imaginava o segredo de tanto coração e historia para deixar.

Uma dos seus filhos era uma moça, que foi deixada a sua porta e foi criada com um carinho imenso, e como presente fugiu com um cidadão com todas as suspeitas que pudessem ser medidas, fato este que levou a mãe a um quadro de acidente vascular cerebral.

Era mais uma cruz que meu amigo carregava com que nada fosse acrescentada a sua dor. Sempre resolvia os problemas da minha casa com relação a defeitos elétricos, e eu resolvia as diferenças financeiras de sua casa.

Atualmente vivia passando com este drama, e sem empregada, ajudava a mulher nas coisas de casa e no auxilio dos filhos, com a mesma cara sem choros ou lamentos. Sempre solícito, não media distancia quando era convocado, trazendo consigo o seu netinho de quatro anos fruto da filha que deixou a mãe aos prantos e sofrida.

Hoje pela manhã, apesar de suas eventuais limitações sua esposa telefonou para mim aos prantos, pois encontrou o meu amigo sem vida em uma cadeira quando via o computador. De imediato fui a sua casa, em um dos bairros distantes, e o encontrei sem vida com as características de ter sofrido um infarto fulminante.

Não tinha dinheiro nem para comprar uma vela, e de forma rápida providenciei o seu caixão e todo os trâmites necessários para um enterro digno. Ofereci à sepultura da minha família, mas a mulher optou por enterrar na terra dos seus parentes.

Permaneci junto a todos, e com todos derramamos as nossas lágrimas, imaginando a vida desta mulher de agora em diante, com os filhos excepcionais e uma filha que desapareceu no tempo e não dava noticias.

Ao sair o enterro e até onde minha vista alcançava, fiquei a imaginar que naquele caixão partia a bondade de forma integra para nunca mais voltar.

SOBRE RAFAEL HOLANDA

RAFAEL HOLANDA
Médico e escritor. Reside em Campina Grande-PB.

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