[RAFAEL HOLANDA] Parabéns, Doutor!


Completo 70 anos, dos quais 44 anos de sacerdócio, pela preservação da vida. Abracei uma especialidade que assusta, onde o sofrimento se fez praça, a tristeza canteiro e a morte semente, mas mesmo assim me tornei força e fui capaz de amenizar tudo isso.

Como médico caminhei por estradas escuras tentando encontrar luminosidade, lutando contra as tempestades que tinham intenção de enterrar jovens que em pleno gozo da mocidade se perdiam por estradas da irresponsabilidade; morrem ou carregam consigo lesões indeléveis.

Fui alegria para muitas famílias, também lágrimas porque minha força se perdeu diante do chamado do Senhor. Com certeza fui capaz de trilhar pelos campos desérticos da desesperança e transformá-los em férteis de felicidade.
Lutei diuturnamente com um passo na vida e outro na morte; evitei sepulturas e por minha formação não busquei agradecimentos, pois simplesmente cumpri o que me foi entregue.

Nas estradas da medicina sofri minhas derrotas por várias vezes, mas consegui me transformar reflexo de Deus na esperança dos que sofriam. Tive minhas lágrimas, e me incorporei às lágrimas de tantos, quando me encontrei perdido diante de uma grave patologia.

Salvei a tantos e a tantos fui conforto, em momento de imensa tristeza fui capaz de ceder meu ombro e junto ao desespero chorei junto; travei um bom combate e não olhei para relógio diante da dor de alguém.

A vida é assim e assim deveria ser, pois aquele que abraça a dor tem por obrigação de transformá-la em alegria. Destronar o sofrimento e elevar o riso da saúde, pois é através destes atos que o médico se torna maior aos olhos de Deus.

Vale a pena ser médico; vale a pena trazer para vida quem em vida já se incorporava a morte; vale à pena vencer e seguir adiante, além de perdoar as injustiças. Vale a pena ser símbolo da verdade e confiança e não se enveredar pelos caminhos da maldade, apenas para viver sob o signo da moeda e se surpreender com a forte chibata na consciência diante da prestação de contas.

Da medicina guardo recordações, apesar de sentir triste pela maneira discrepante das pedras atiradas, ofensas recebidas, quando na realidade os erros não são nossos. Culpam-nos pela falta de remédios básicos, por jovens que morrem pela fome, pela miséria absoluta que serve apenas de complexo vitamínico aos políticos.

Ao me parabenizar eu parabenizo a todos os colegas que vivem por vários cantos desta nossa Paraíba em busca da dignidade de viver, e fazerem com que muitos sejam abençoados por as mãos que se tornaram divinos, sem a necessidade da vela pelo desprezo médico.

RafaelHolanda-nova

Previous [REUDESMAN LOPES] O retrato do nosso país
Next [PEPÉ PIRES FERREIRA] Os Anos de Chumbo em minha memória (III)

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *