Cajazeiras-PB, 21/10/2017

Promessa de amor além-túmulo (final)

Doze dias depois do fatídico evento, em 5 de outubro, por volta das 8 h da manhã, a jovem e inconsolada Ágaba, conduzindo às mãos uma grinalda de flores, lábios trêmulos, preces íntimas e silenciosas, olhos fixos no chão sem se aperceber dos que a observavam, caminha sozinha em direção ao cemitério.

Em lá chegando, ajoelha-se, reza e chora… Segundo relatos dos que a observavam, num gesto súbito, ergue-se e, batendo com as mãos na lápide fria da sepultura, com a voz entrecortada de soluços e emoções, fala baixinho: “Adeus, Sady, até amanhã por essas mesmas horas!”

Agora são 6 de outubro, meio-dia e meia, em sua residência, Ágaba, num ato que para ela parecia heroico, extremamente pálida, sorve resolutamente o conteúdo de um frasco de arsênico que havia buscado em um aposento/depósito do seu pai. Recolhe-se ao seu quarto, já sofrendo os estertores da morte. Mesmo assim, ainda consegue escrever três cartas, das quais duas permaneceram com a família, mas de cujo conteúdo o público não teve conhecimento.

Ao final da escritura da terceira carta, começam a advir os efeitos do fatídico veneno. Já eram por volta de 4 h quando a jovem, agonizante a agonizando no seu leito branco e virgem de donzela, cercada por familiares prostrados pela imensa dor que os feria e que nada mais podiam fazer diante das limitações médicas da época, assistem aos derradeiros momentos de uma tragédia ditada pela exaltação do amor, acompanhando o último suspiro da filha que se ia para junto do amado.

Novamente, repete-se o mesmo cortejo: jovens colegas, uma mocidade tristonha, rumam ao mesmo cemitério em que ela chorou e em que estava Sady enterrado. Em sua lápide ficou estampado o epitáfio: “Ágaba Gonçalves de Medeiros aqui jaz – Viandantes do destino, orai por ela, a vítima do amor e da dedicação!”

Ali permanecem, em tumbas vizinhas, os restos mortais de Ágaba e Sady, bem próximos, mas muito distantes, talvez buscando ambos, na eternidade dos fatos, uma união que não lhes tinha sido possível concretizar em vida. Mas, apesar de mortos, continuaram juntos.

SOBRE FRANCELINO SOARES

FRANCELINO SOARES
Professor e apresentador na Rádio CBN João Pessoa.

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