Cajazeiras-PB, 15/12/2017
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Projeto Cura

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Era o segundo mandato do prefeito. No primeiro, fez obras marcantes que demonstraram seu arrojo e o diferenciaram de outros administradores. Neste, apesar da administração ir muito bem, faltava aquele toque que fizesse a diferença, que superasse a primeira gestão. A única saída vislumbrada era aprovar um empréstimo bancário através do Banco Nacional de Habitação (BNH) chamado Projeto Cura, que daria ao prefeito os recursos que ele necessitava para construir praças, asfaltar ruas, implantar saneamento, tudo para atingir sua meta. O problema é que, para assinar o contrato de empréstimo, a prefeitura teria que apresentar a ata de uma sessão da câmara municipal que o autorizasse para tal, e maioria na câmara era coisa que o prefeito não tinha.

Para pressionar a câmara, o prefeito lançou uma campanha no sentido de mobilizar a opinião pública a favor do Projeto Cura. A oposição, que antevia o fortalecimento do prefeito com aquele empréstimo, mobilizou-se contra e a cidade entrou numa efervescência só comparável às mais acirradas campanhas para sucessão municipal.

As estações de rádio locais e sucursais dos jornais da capital entraram no clima. Nas rodas de bate papo o assunto era sempre o Projeto Cura. A cidade dividiu-se. Amigos arranhavam amizades de décadas, casais brigavam, a discórdia grassou, ate os conterrâneos que residiam em outras cidades envolveram-se na contenda. No meio da guerra sem quartel em que se transformou a polêmica, os políticos davam seus lances em silêncio, como numa partida de xadrez. Em público, deputados pronunciavam-se na tentativa de convencer à população de que assumiam determinada posição pelo bem da cidade, procuravam mostrar as vantagens ou desvantagens do projeto e, na surdina, tentavam cooptar vereadores para seu lado. Estava armado o “imbroglio”. As coisas ficaram tão disputadas que, depois das mais surpreendentes mudanças de posição dos vereadores, todos com voto já manifesto, as intenções de voto continuavam empatadas e, como o presidente da câmara daria o voto de Minerva, não se podia confiar.

Na cidade para gozo férias escolares, um familiar do prefeito entrou na história. Escolheu um vereador iletrado e vaidoso que já havia mudado o voto por várias vezes. Pediu à secretária do prefeito que fizesse uma ligação telefônica para a casa do vereador e dissesse que era do palácio do governo e que aguardasse na linha porque o próprio governador desejava conversar com ele.

Ao ser informado que o governador em pessoa queria falar-lhe, o nosso Licurgo não coube em si de felicidade. Sentiu-se o mais importante dos homens. Os propositais momentos que a pretensa assessoria palaciana demorou a passar a ligação ao chefe pareceram-lhe uma eternidade, eis que, o êxtase, a emoção suprema apossou-se de todo seu ser ao se imaginar que ouviria a voz do governador. Não era um telefonema protocolar, o mandatário pedia segredo, tratava-o como parceiro num grande pleito e fazia-lhe um pedido cujo atendimento deixaria o governador e a cidade em eterna dívida para com o vereador. Era a glória. Confidente e credor do governador, avalista do desenvolvimento do município e responsável pela mudança radical na expectativa de progresso da cidade, tudo isso, só para votar favorável ao empréstimo. Aquele mandato de vereador lhe proporcionaria tudo que o destino lhe negara quando o fez nascer numa família pobre do interior do Nordeste.

Melhor do que estava lhe acontecendo só se pudesse sair pela cidade contando a todos. Imaginava a cara que fariam os amigos, os vizinhos, os eleitores. Não! Não podia trair a confiança do agora amigo íntimo. Era confidente de um segredo de estado, tão importante que deveria, naquele momento, fazer as malas para ser levado a um local seguro e secreto onde permaneceria até o dia e hora da sessão. Era preciso salvaguardá-lo das pressões que poderiam ser exercidas e, sobretudo, era preciso manter aquele segredo.

Hoje, não fora a inconfidência de um certo deputado, ainda estaria o nosso edil embalado na doce ilusão de que o destino teria lhe reservado um dos papeis de protagonista naquele episódio.

Reservou, ele é que não se apercebeu.

VALIOMAR ROLIM PARA O GAZETA DO ALTO PIRANHAS - ED.301

SOBRE Christiano Moura

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