Cajazeiras-PB, 19/10/2017

[PEPÉ PIRES FERREIRA] Os Anos de Chumbo em minha memória (III)

Aproveitando a trégua da campanha eleitoral, em que a gente não pode “assuntar” a política paroquial, vamos continuar as reminiscências do período militar e seus reflexos na nossa comunidade. Hoje vou tratar de fazer uma espécie de tentativa de análise do episódio mais momentoso que aconteceu por aqui no “outono” desse período, que numa recente crítica feita pelo muito satanizado Gen. Nilton Cruz, que afirmou que um golpe militar era “uma arrumação da casa, mas ninguém passa 21 anos para arrumar uma casa…”…

Sucedeu em 1975, ano passado completou 40 anos (deus, como tô ficando velho!!), e eu cursava o ensino médio em Recife, pois por aqui não haviam cursinhos que preparassem para os vestibulares dos cursos de “primeira linha”, então a gente aos quinze, dezesseis anos ia ser estudante nas capitais. Morava em Recife, e logo cedo, fomos acordados por um telefonema, avisando sobre o caso, e que tinha explodido uma bomba no Cine Apolo XI, e que a cidade sido invadida pela Polícia Federal. A noite, com grande destaque, a gente assistiu Cajazeiras na grande mídia, inclusive com fotos onde apareciam Dr. Epitácio, e Dr. Iemirton Braga (que eu me lembro), tratando dos feridos, tudo isso apresentado por Cid Moreira, o top dos apresentadores do Jornal Nacional.

Mas como já disse eu não estava presente nesse momentoso episódio, e acompanhei à distância. Vou me servir o que me contara os amigos que presenciaram o episódio em si e o restante do desenrolar desses acontecimentos, em espacial Sabino Filho e Ferreirinha.

No Apolo, como era de praxe então a gente ia assistir os filmes que lá passavam, juntamente com o Cine Éden e, mais raramente no Cine Pax, o cinema, era uma das poucas atividades de lazer que nos eram oferecidas: o filme que lá passava era “A Piscina”, com Romy Schneider, e como era um filme meio velho, estava faltando algumas partes, então ele terminou antes do normal. Todo mundo saiu do Apolo, e quando a turma estava na Rua Victor Jurema, à altura de onde funcionava o posto do INPS, ocorreu a explosão.

O que se sabe é que depois de encerrada a sessão, o Didi, soldado que era destacado para fazer a segurança do cinema (e assistir aos filmes), dando uma vistoria, descobriu em baixo de uma poltrona, uma bolsa tiracolo entre grande e média e chamou o projetista para entrega-la, supondo que tivesse sido esquecida. Nesse momento, aconteceu a explosão, matando imediatamente o projetista Manoelzinho, que vivia no Seminário, e antes o conheci pois era o goleiro de nosso time de peladas, e causando gravíssimos ferimentos em Didi, que depois veio a óbito. Era ele que apareceu como vítima nos fotos tiradas no hospital, que foram divulgadas pela TV globo. Também ficou ferido um retardatário que ficou vendo os cartazes dos próximos filmes, afixados na ante sala do cinema.

Como a bolsa foi achada embaixo de uma cadeira que usualmente era ocupada por D. Zacarias, nosso bispo diocesano e cinéfilo, o que se tem de absoluta certeza, é que o alvo era esse religioso, uma das mais importantes figuras de nossa região no século passado.

Então, ato contínuo, logo que se divulgou a notícia, foi disponibilizado um, segundo me contaram impressionante aparato coordenado pela Polícia Federal, praticamente invadiram a cidade, contando inclusive com helicóptero. Eram tantos, que uns azilados bebendo e vendo um cachorro ficar a vigiá-los, um disse será que não é um polícia Federal disfarçado de cachorro??

Todos que tinham alguma relação, tanto com a sessão, como outros, o nosso “comunista oficial” Sabino Barbado, Bosco Barreto (que era do MDB, oposicionista), como o nosso inventor da oficial da cidade, Inácio Assis, foram interrogados. Inácio disse que se quisesse fazer uma bomba, ela destruiria era o quarteirão, e achava que esta era feita de forma primitiva, ou artesanal.

Atingiu o teto de gesso (abriu um buraco) e como era feita com pregos, alguns chegaram a danificar a tela, situada a mais de dez metros.

Como soube, Ferreirinha,e Paulo Antônio (Guedes), depois de descartados como autores, foram convocados para duas longas sessões de reconhecimentos, no hotel do Brejo das Freiras, e apresentadas, centenas de fotos para que algum se lembrasse. Nossa cidade ficou na Grande Mídia por mais ou menos uma semana, e como nada se descobriu, nem houveram outros desdobramentos, o caso foi esfriando.

Agora resta a questão quem praticou esse atentado contra nosso bispo.

Como não disponho de espaço, deixo para a próxima semana para analizar a perquiris suas razões, mas pode ser que traga ainda menos luz ao mais momentoso caso dessa época.

Semana que vem eu tento analisar as possíveis causas. Por hoje, ficam os fatos. Se alguém puder enriquecer essa discussão com novos fatos, esses serão muito bem vindos.

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SOBRE PEPÉ PIRES FERREIRA

PEPÉ PIRES FERREIRA
Engenheiro mecânico e advogado.

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