[PEPÉ PIRES FERREIRA] Geralda/Lada: a superação, a confiança e o otimismo


Perdemos uma pessoa que quase todo mundo que a conheceu, sempre a teve em alta estima. Perdemos alguém do bem; vou apenas registrar na parte que vivenciei, que foi pouco, mas muito marcante.

Quando do fim de minha infância, minha mãe tinha como ajudante uma moça nova, que se chamava Geralda Ferreira. Tinha duas características: a primeira era que minha mãe grande analista de traços físicos: comentava que ela devia ter tido uma infância de dificuldade; o que naqueles anos setenta, queria dizer o seguinte, passou por tais carências que podia não ter sobrevivido, hoje tem-se os programas sociais, naquele tempo, até se morria por falta deles. Outra característica de sua personalidade, era uma mania de limpeza que quase chegava à obsessão, tudo lá em casa era limpo, varrido e brilhante, tanto, que quando a gente se mudou para o Rido de janeiro (minha mãe foi fazer tratamento para o corpo – perdeu um rim, e para a mente: Fez psicanálise, (Cajazeiras também mata) deixou para cuidar da nossa casa exatamente Geralda, e depois de todo um largo tempo (quase cinco anos), graças a características singulares: zelo, determinação e otimismo sempre que nos falávamos ela tinha estava como sempre; parecia que suas duas filhas, Eliene e Edilene, a primeira casou-se com um amigo que ora tem o “encargo”de ser o nosso Secretário de Cultura. Todos esses três, eram, como Geralda, pessoas tranqüilas e que encaram com otimismo todos os aspectos e situações, coisa de família.

Agora vem outra faceta de Geralda que tenho que destacar: quando comecei a freqüentar o maior centro dedicado aos cultos da Mãe África, fiquei impressionado de que aquele centro tinha como figuras de destaque, ou era “gerenciado” por duas pessoas de meu contato de décadas, meu antigo vizinho Jackson Ricarte, e a secretária de minha mãe Geralda Ferreira, carinhosamente conhecida por um nome estranho para mim: “Mãe Lada”. Tive inclusive a oportunidade de presenciar numa festa, ela a incorporar seu Orixá, Yemanjá, belíssima. Quem não viu, infelizmente não terá condições de ver e apreciar esse culto que sempre foi e até hoje é perseguido pelo preconceito, o que reforça a frase que ouvi da própria Geralda: “O que nunca vou abandonar e negar é o candomblé”. E coma mesma dedicação e zelo com que de distinguiu desde eu a conheci. Todos perdemos.

Então ocorreu o que nenhuma religião, culto ou magia, por mais fundamentalista que seja  pode oferecer no seu cardápio: a imortalidade: Geralda (Mãe Lada), que como minha mãe fumava muito, veio a desenvolver uma doença pulmonar que finalmente a tirou de nós. Mas, e tenho que dar meu testemunho, nunca, nem no final de sua enfermidade, proferiu alguma reclamação, nem se lastimava de nenhuma situação, levou seu otimismo até o túmulo.

Esta se foi do mesmo jeito com que viveu: dedicada e encarando todos os aspectos a vida da mesma forma.

Todos que a conheceram, inclusive eu, nos sentimos diminuídos.

Que Yemanjá encontre seu lugar adequado. Com certeza um bom lugar. Ela merece.

geralda

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