Padre Rolim, sua vida e sua obra


padre rolim colorido

O padre INÁCIO DE SOUZA ROLIM era filho de VITAL DE SOUZA ROLIM e sua esposa AMA FRANCISCA DE ALBU- QUERQUE, conhecida por Mãe Aninha, que foi una bela expressão de piedade cristã e generosidade d’alma, sendo conside- rada o modelo das mães caja- zeirenses.

Sobre a personalidade desta mulher, cuja memória é venerada respei- tosamente, muito se tem falado de suas virtudes, e de sua ação de trabalho e a- ssistência social. Fala-se que sempre fora uma das mais vivas preocupações de ANA DE ALBUQUERQUE cuidar dos pobres. Quando saía para passear pelas veredas da fazenda primitiva, levava sempre um pouco do algodão para ir fiando. Vendia depois os novelos de fio que fazia nestes passeies a fim de aplicar o dinheiro aos pobres. Os cajazeirenses devem ter um culto de veneração a esta mulher. Foi ela quem fez a igreja que é hoje a Catedral de Cajazeiras. (Referência à atual igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima, que foi por muitos anos a Sé Episcopal desta Diocese). Adivinhou o futuro dessa terra. Era uma senhora sem orgulho. Apesar de rica, dona de escravos e senhora do lugar, prestava a todos indistintamente os seus serviços de obstetrícia. Não perguntava se era rico ou pobre, branco ou escravo que a chamava. Tudo que uma mulher pôde ter de virtude, de piedade, de espírito de sacrifício, de dedicação maternal, de energia, de elevação e de beleza moral teve-o ANA DE ALBUQUERQUE.

O padre ROLIM nasceu na então fazenda de Cajazeiras, proprie- dade de seus pais, em 22 de agosto de 1800, sendo batizado na capela de São João do Rio do Peixe pelo padre Inácio João. Foram seus padrinhos LUIS GO- MES, conhecido por alcunha de Velho Alferes, e sua esposa, FRANCISCA XAVIER DE MELO.

Em 1816, foi para o colégio do padre JOSE MARTINIANO DE ALENCAR, no Crato, donde voltou no ano seguinte por causa da revolução de 1817. Padre MARTINIANO DE ALENCAR tomou parte saliente nesse movimento revolucionário.

Padre Rolim seguiu depois para a cidade de Sou- sa, onde continuou os seus estudos durante algum tem- po. Partiu para Pernambuco em 1822 e internou-se no se- minário de Olinda, orde- nando-se em 2 de outubro de 1825.

Em 1826, ocupou o cargo de reitor daquele seminário e durante este período entregou-se apaixona-damente ao estudo das línguas vivas e mortas. É sabido com certeza que o padre ROLIM sabia dez línguas: latim, grego, sânscrito, hebraico, português, francês, italiano, espanhol, inglês e alemão. Se us artigos sobre história natural eram remetidos para Portugal e ali publicados nas revistas mais importantes.
FIEL ADEPTO DE AZEREDO C0UTINHO

De volta a Cajazeiras, em 1829, foi conviver na companhia de seus pais, ajudando sua mãe nolevantamento da igreja.

O padre ROLIM, educado na escola de Azeredo Coutinho, compre- endia a indeclinável necessidade de di- fundir a instrução como prodigiosa for- ça de levantamento moral do povo paraibano, digamos melhor, da pátria brasileira.

O primeiro colégio que o padre ROLIM abriu nos sertões paraibanos foi no lugar Serraria, existindo, ainda em 1903, já denegridas e carcomidas as paredes dessa escola.

Crescendo o número de meninos que   queriam estudar, o padre ROLIM teve de transportar o seu pequeno colégio de Serraria para mais perto da casa de seus pais, onde fez construir uma pequena casa de taipa para esse fim.

Foi esse o princípio do Colégio ROLIM, que começou a funcionar oficialmente em 1843.

 

O COLÉGIO PROPULSOR DO DESENVOLVIMENTO DE CAJÁZEIRAS

Nessa época já o Colégio era o primeiro estabelecimento de edu- cação em todo o Estado e o seu renome se aos Estados vizinhos, pois vinham-lhe es- tudantes de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Maranhão.

Em 1849, o venerando sacerdote começou os tra- balhos de um cemitério e os alicerces de um novo edifício para o colégio.

Sobre o colégio diz Celso Mariz. “A casa de ensino do Padre ROLIM fazia-se À proporção que chegavam os discípulos. Cada aluno esperava o seu teto, embora já encontrasse o seu livro”.

Foi esse prédio o propulsor do desenvolvimento de Cajazeiras. Assim diz o padre HELIODORO PIRES, cronista do Padre ROLIM: “Atraída pelos doutos ensinamentos do padre ROLIM, afluiu para ali, em poucos anos, uma população considerável que formou essa cidade única na Paraíba, cujas bases se formaram em estabelecimento de instrução primária e secundária”.

Entre os estudantes do citado estabelecimento figuram o saudoso CARDEAL ARCOVERDE, e outras personalidades de relevo na política, no clero e na sociedade do Estado.

 

NO MAGISTÉRIO PERNAMBUCANO

Em 1855, teve o padre ROLIM de abandonar narra sua oficina de ensino, em virtude de exigir Pernambuco a sua cooperação no magistério, por intermédio, do presidente JOSÉ BENTO DA CUNHA FIGUEIRÊDO, que muito o admirava.

No Ginásio Pernambucano esteve lecionando a cadeira do Grego, para a qual fora especialmente chamado até 1862, voltando licenciado ao sertão, onde ficou definitiva mente.

Floresceu o Colégio Padre ROLIM até 1877, vindo arrefecer-lhe o prestigio a terrível seca, que tanto desolou estes sertões, depois da qual não readquiriu mais o brilho de outrora, apesar de grandes tentativas.

 

APÓSTOLO DA FÉ E DA RELIGIÃO

Diz o padre HELIODORO PIRES: “de uma modéstia invejável e gran- de sobriedade em todos os seus hábitos, jovial e sincero, do uma pureza angelical, amando mais aos outros do que a si, foi o padre ROLIM um misto de piedade, doçura e bondade infinita e alma sempre voltada para o bem, para o mais sublime dos sacrifícios, o sacrifício dos seus interesses a bem da comunidade geral. Cajazeiras era uma fazenda, ele a transformou em um centro do civilização, proporcionando-lhe ao mesmo tempo as indispensáveis condições da existência; tinha os braços e o coração sempre abertos às agruras de todas as misérias humanas; era uma vida toda modelada nas belezas morais do Evangelho e na doutrina do Divino Mestre”.

 

Contava-o também a ciência como um dos mais formosos prosélitos. Dedica-se às línguas e tornara-se um poliglota. Nas ciências fizera da História Natural o campo de especial predileção, cujos segredos perscrutava com as visões de um predestinado desvendando o que ela tem de impenetrável. Nisto que se ilumina a compleição do filósofo. De suas obras apenas saíram à publicidade a História Natural e a Gramática Grega.

O padre ROLIM pretendia ainda publicar um tratado de filosofia e outro de retórica, bem como uma Gramática Portuguesa, o que não chegou a fazer devido a sua ojeriza às imperfeições do serviço tipográfico verificados com a publicação de sua Gramática Grega.

0 padre ROLIM foi um devotado à ciência de quem muito tinha a ganhar, se a instintiva atração o não arrastasse ao sertão e o não fizesse abandonar os grandes centros, onde encontraria uma vasta arena de material para satisfazer a sua afanosa ânsia de saber.

Do seu amor à instrução, diz ainda o padre HELIODORO: “Onde quer que estivesse, fundava uma escola, sempre a investigar os meios de melhorar a instrução e mais proveitosamente difundi-la, como se nisso visse a pedra de toque” o momentoso problema do aperfeiçoamento de sua pátria.

 

O ANIMADOR DO PROGRESSO DE CAJAZEIRAS

A realização da primeira feira de Cajazeiras deve-se à iniciativa do padre ROLIM, juntamente com o seu cunhado tenente SABINO DE SOUSA COÊLHO, conseguindo, as- sim, atrair o comércio que então se fazia em SÃO JOSÉ DE PIRANHAS, a 5 léguas desta cidade.

Assim escreve o Sr. Emídio Assis: “A 1ª feira de Cajazeiras realizou-se em um domingo de agosto de 1848, cuja finalidade era atrair o comércio que então se fazia regulamente em São José de Piranhas, a 5 léguas ao sul desta cidade. 0 padre ANTONIO TOMAZ, vigário da paróquia, faz a prédica anunciando ao povo a primeira feira garantindo ao mesmo tempo o consumo de todos os víveres que afluíssem ao mercado. Somente, a primeira feira, o pequeno mercado não consumiu os víveres cujas sobras foram compradas pelo tenente SABINO DE SOUSA COÊLHO e o padre ROLIM, como haviam prometido”.

 

PADRE ROLIM ABOLICIONISTA

Padre ROLIM foi também um sincero admirador do ideal abolicionista, de que deu admirável exemplo.

Em 1839, renunciando a favor de seus irmãos a pequena herança que de seu pai lhe tocara legitimamente, deu a carta de alforria a todos os seus escravos, procedendo (sic, acredito que o uso do vocábulo procedendo não procede, acredito que um erro gráfico, o correto seria precedendo), o movimento abolicionista, que só veio se verificar anos depois.

 

SÍNTESE DA SAED0RIA, DA VIRTUDE E DA CARIDADE

Faleceu o padre ROLIM às 8 horas da noite do dia de sábado 16 de setembro de 1399, em um quarto, que lhe servia de aposento, no prédio do Colégio que fundara, onde viveu os últimos tempos dê sua preciosa existência, entregue às práticas da caridade cristã e a uma quase abstinência de alimentação.

Foi vitimado  por uma astenia cardíaca e senil, pertinaz incômodo que o prostrara um mês   antes, pondo fim à sua valiosa existência.

Os seus últimos momentos foram assistidos pelo padre JOAQUIM CIRILO SÁ, que naquela época regia a paróquia de Cajazeiras.

Foi sepultado na segunda-feira, 18 do mencionado mês, cerca de 11 horas do dia, ao lado esquerdo do altar-mor da Catedral, (atual Matriz de Nossa Senhora de Fátima), templo por ele construído no início de sua imaculada vida de sacerdote exemplaríssimo e abnegado.

O seu passamento, narra o cronista, teve lugar em setembro, no rigor da seca, entretanto o seu cadáver, que foi sepultado quase três dias depois da morte, não exalava nenhum odor que indicasse putrefação.

As exéquias foram celebradas pelos padres JOAQUIM CIRILO DE SÃ e MANOEL VIEIRA DA COSTA, residentes em São João do Rio do Peixe.

Diz o padre HELIODORO PIRES: “Na ocasião das solenidades do funeral, era compacta a multidão que se acotovelava no recinto da igreja Matriz, que se tornou tempos depois Catedral, no afã de se aproximar do ataúde do venerando extinto”.

PUBLICADO NO JORNAL A UNIÃO EM 22 DE AGOSTO DE 1937

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