Cajazeiras-PB, 18/11/2017
HOME » ALMANAQUE » O velório

O velório

bebado-dirigindo

Os dois não se entendiam. Por mais que os pais, que eram primos, se esforçassem, não tinha jeito. Walter e Paulo Antônio eram almas dispares. Desde bem pequenos brigavam por tudo, tudo mesmo, até mesmo quando lhes davam presentes iguais: reclamavam que o presente fora dado primeiro a um dos dois.

Cresceram assim. Por dá cá aquela palha, faziam uma confusão. No futebol não tinha jogo, era uma briga só, até foram proibidos de jogar, no mesmo time ou adversários, era a mesma coisa: briga. Os pais, muito amigos, amigos mesmos, faziam de tudo, mas não conseguiam unir as duas peças.

Famílias amigas, sempre próximas, se freqüentando, todos os fins de semana passando juntos, fizeram os dois crescerem perto um do outro. Tudo que era festa, passeio, feriado ou qualquer tipo de folga, lá estavam, e os filhos a brigar.

A coisa foi crescendo, e os filhos também, até que eles chegaram à adolescência (ou à aborrescência?). Por mais que brigassem estavam, estavam sempre juntos. Eram muito parecidos, se adoravam e não sabiam.

Começaram a roubar o carro dos pais. No começo, para umas voltas na cidade. Depois, pequenas viagens em cidades e balneários da região.

Um certo domingo, os pais sentiram a ausência dos dois. Os pais de Walter, mais ainda, além do filho o carro também tinha desaparecido. Foi um dia de aperreios, os filhos ausentes e um carro também. Procuraram por tudo e por todos. Nada, ninguém dava notícias.

Fim de tarde, começo de noite, chega um Paulo Antônio contrito, triste, mortalmente triste. Aos pais de Walter deu noticia da morte dele num acidente automobilístico.

Foi a maior consternação. Os pais, quase morreram também. Instalou-se o clima de velório, a cidade toda soube da notícia. A missa das sete da catedral terminou e a casa encheu-se de gente. Todos que foram à missa vieram mostrar a solidariedade à família. Os parentes mais próximos do jovem falecido já tomavam as providências legais para o enterro, a cidade se mostrava em comoção pela morte de uma pessoa tão jovem.

Walter, depois de horas a esperar por um socorro que não vinha, sem conseguir imaginar a razão pela qual os amigos não voltavam, desistiu e pegou uma carona até à cidade.

Suado, cansado, sujo, meio de ressaca, com medo da reação dos pais diante do acidente com o carro, entrou em casa.

Foi uma correria geral. Ainda hoje não se sabe como e por onde passou tanta gente.

VALIOMAR ROLIM PARA O GAZETA DO ALTO PIRANHAS

SOBRE Christiano Moura

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *