O ódio nosso de cada dia

TATYANA
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As cenas ganham a dimensão do macabro espetáculo que a mídia televisiva encena como estratégia de marketing. O melhor ângulo, a imagem mais chocante, o cenário mais dramático, a voz mais apelativa. Tudo se soma em cenários irreais onde a audiência determina textos, orienta meias verdades, parcialidades escancaradas, versões negligenciadas, valores deturpados. Os ataques terroristas que sacudiram Paris, deixando na névoa dos explosivos que iluminaram a noite boêmia da capital francesa o odor nauseabundo do enxofre que antecipa as cristãs referências infernais e demoníacas, ganham as páginas e telas da mídia classificando e nomeando vítimas e terroristas, suspensos em posições antagônicas e irreconciliáveis.

A cobertura que os veículos de comunicação continuam dedicando aos atentados trazem, de forma explícita, posições políticas que expressam como, milenarmente, o Ocidente branco, cristão, masculino, monoteísta, busca sufocar e abafar toda e qualquer possibilidade de expressão religiosa, social, econômica, política que escape desses lugares. Historicamente, essa posição nos é naturalizada, por exemplo, nas Cruzadas ensinadas como nobres e santificantes gestos de redenção de um espaço sagrado e que estava sendo profanado por “infiéis” que ousavam cometer a heresia de saudar outros deuses, reverenciar outros santos, genufletir outros símbolos.

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A naturalização desta violência vem sendo ensinada como necessária ao processo civilizatório que o mundo ocidental acumulou ao longo dos séculos. Um processo que cristianizou os índios do Novo Mundo, lhes ensinando o deus único e lhes usurpando minas, riquezas, vivências. Um processo que segregou africanos em guetos e asiáticos em muros e muralhas ideológicas.

E não são apenas gestos materiais que vão se cristalizando em dominação e subserviência. São corpos ocupados por modelos e padrões estrangeiros. São crenças desqualificadas em nomes de novos ídolos. São comportamentos condenados porque novos paradigmas ditam o que é coreto e o que é aceitável. São templos convertidos em santuários para o culto de deuses estranhos ao mundo nativo.

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E quando o dominado rompe o ódio latente e tinge de sangue e medo a higiênica paz branca ocidental pincelada com a artificialidade de tantos crimes silenciados, de tantos inocentes ceifados em carnificinas cometidas em nome do progresso e das boas práticas democráticas, são rotulados de terroristas, cruéis, desumanos, adubo do ódio e da irracionalidade. Mas, qual a razão que justificou Cruzadas, Vietnã, Camboja, Afeganistão, Iraque? Qual deus se sustenta como subterfúgio do amor e legitimação do crime?

E em nossas mentes, entre lampejos de esperança na humanidade, os versos da Leila Diniz surgem como um epitáfio, não aos mortos, mas aos vivos que apostam no homem como possibilidade de humanidade: 

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
O mar é das gaivotas
E de quem sabe navegar.

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Porque não sabem que o mar
É de quem o sabe amar.

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MARIANA MOREIRA É JORNALISTA E PROFESSORA UNIVERSITÁRIA

ELIANE BANDEIRA

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